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				<journal-title>Literatura: Teoría, Historia, Crítica</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Lit. teor. hist. crit.</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">0123-5931</issn>
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				<publisher-name>Universidad Nacional de Colombia</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.15446/lthc.v21n1.74880</article-id>
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					<subject>Reseñas</subject>
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				<article-title>Sedlmayer, Sabrina. <italic>Jacuba é gambiarra; Jacuba is a gambiarra.</italic> Edição bilíngue. Traduzido por Rodrigo Seabra, Belo Horizonte, Autêntica, 2017. 82 pp.</article-title>
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						<surname>da Silva Andrade</surname>
						<given-names>Luiz Eduardo</given-names>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original"> Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil</institution>
					<institution content-type="normalized">Universidade Federal de Minas Gerais</institution>
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						<city>Belo Horizonte</city>
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					<p>
						<graphic xlink:href="0123-5931-lthc-21-01-339-g001.jpg"/>Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons</p>
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			<pub-date pub-type="collection">
				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2019</year>
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			<volume>21</volume>
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			<title>Uma proposta para interpretar o Brasil</title>
			<p>Ao propor uma releitura da &quot;gambiarra&quot; e da &quot;jacuba&quot; nas artes contemporáneas, Sabrina Sedlmayer abre uma chave de leitura para mais uma interpretação do Brasil e revisão dos métodos de estudo em literatura. A partir de um diálogo com Walter Benjamin e Giorgio Agamben, a autora aborda obras de Rivane Neuenschwander (artes plásticas), Cao Guimarães (fotografia), O Grivo (música) e Guimarães Rosa (literatura). A &quot;gambiarra&quot; e a &quot;jacuba&quot; são tomadas como paradigmas tipicamente brasileiros ou modelos de pensamento que problematizam o que se entende por performance, originalidade, reprodutibilidade, uso e experiência na cultura material e imaterial da nação. Desse modo, a publicação contribui para pensar como as imagens se interceptam nas artes e na literatura.</p>
			<p>Um livro escrito com audácia. Essa é a impressão mais forte deixada por <italic>Jacuba é gambiarra,</italic> de Sabrina Sedlmayer, professora e pesquisadora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. A audácia se dá em pelo menos dois planos: no método e na conclusão alcançada. Embora seja uma divisão meramente didática, pois é natural que um aspecto leve ao outro - no caso do ensaio em questão, os desdobramentos da abordagem provocam a revisão dos métodos de &quot;leitura do Brasil&quot; e, com isso, já questiona o percurso crítico de certa tradição acadêmica.</p>
			<p>A publicação foi lançada pela Editora Autêntica no segundo semestre de 2017. É uma edição bastante cuidada e criativa, a começar pela &quot;gambiarrice&quot; da costura vermelha exposta por um corte na lombada. Além disso, a publicação é bilíngue, traduzida para o inglês por Rodrigo Seabra, e com desenhos de Porfírio Valladares. As imagens distribuídas pelo texto são um rolo de barbante que vai da capa ao final do escrito, um candeeiro, algumas tomadas &quot;T&quot;, uma folha e três muletas separando as seções, num jogo metalinguístico com as ideias da autora. Após a introdução, o ensaio é organizado com os seguintes títulos: &quot;Das artes e da experiência&quot;, &quot;Rastros&quot;, &quot;Macunaíma olha&quot;, &quot;Quadros de som, músicas de gestos&quot; e &quot;Do provisório, dos usares&quot;. Ainda que a discussão problematize uma imagem de Brasil - e careça, por isso, articular ideias densas -, o tom da escrita é sóbrio e fluido, numa demonstração de generosidade com seu leitor.</p>
			<p><italic>Jacuba é gambiarra</italic> é um dos poucos estudos da crítica contemporánea brasileira que se arrisca a transpassar pelos vários campos estéticos, como as artes plásticas, a fotografia, a música e a literatura. Calcada no diálogo com Walter Benjamin e Giorgio Agamben, a estudiosa despreza os modelos de leitura que resistem em distinguir e valorar os tipos de arte e de linguagem como expressões isoladas em meio aos afetos da vida. Para Sabrina Sedlmayer, &quot;gambiarra&quot; e &quot;jacuba&quot;, tomadas como chaves de leitura, são modelos de pensamento criadores de várias dinámicas da nossa forma de vida brasileira, as quais são latentes na arte contemporánea. Essa é, certamente, a proposição mais audaciosa do texto.</p>
			<p>Não há qualquer sugestão de que gambiarra é falta, desajuste, economia, escassez, refugo. Fazer gambiarra significa criar, tal como as esculturas de Véio - e a vida que dá para a madeira retorcida que estava morta -, ou mesmo pensar a ambivalência da famigerada loucura dos restos artísticos de Arthur Bispo do Rosário. Quem faz gambiarra garante um novo uso, o qual só se realiza plenamente com a desativação dos velhos usos. O fazer crítico de Sabrina Sedlmayer percorre, pois, esse limiar com um tipo de questionamento criador de novas imagens acerca do próprio objeto manipulado.</p>
			<disp-quote>
				<p>A pesquisadora diz que</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>os usuários da gambiarra e da jacuba são os inventores do cotidiano: quase invisíveis, clandestinos, astutos, apegados à pirataria (e não só cibernética). Quem faz jacuba ou gambiarra esnoba o poder, além de criar um léxico -mais do que uma palavra, um repertório de gestos, ações, objetos e receitas que nos interpela em sua generosa invenção. (65)</p>
			</disp-quote>
			<p>A jacuba tem seu registro no português brasileiro desde o século xix, a exemplo do <italic>Dicionário da língua tupy,</italic> de Gonçalves Dias. Mais adiante aparece também em <italic>Os sertões</italic> e no <italic>Grande sertão: veredas.</italic> O significado varia, embora esteja sempre relacionado a comida pouco elaborada - um prato simples, com poucos ingredientes. A gambiarra também se perde na origem e na definição, mesmo assim a imagem mais comum é a do fio com os bicos de luz.</p>
			<p>Diante desses paradigmas tipicamente brasileiros, os rolos de barbante que se ligam da capa até o fim do texto metaforizam a reflexão lançada sobre uma emaranhada cena artística contemporánea em que os artistas têm frequentemente nomeado seus trabalhos de &quot;gambiarra&quot;. Nesse mesmo fluxo estão alguns discursos críticos que têm utilizado o termo conceitualmente para compreensão e leitura de determinadas obras.</p>
			<p>O pressuposto tomado é o de que &quot;gambiarra&quot; e &quot;jacuba&quot; são significantes que &quot;interceptam o campo estético, literário e musical contemporáneo e questionam a noção de performance, de originalidade, de reprodutibilidade, de uso e de experiência, além de tocarem fundo em aspectos da cultura material e imaterial&quot; (17). É diante desse contexto, vulgarmente chamado de &quot;improvisado&quot;, que a pesquisadora aborda os discursos sobre a preparação das Olimpíadas do Rio 2016 e segue para análise de obras de Rivane Neuenschwander, Cao Guimarães, O Grivo e Guimarães Rosa.</p>
			<p>A hipótese lançada é a de que esses dois termos performam as artes e a literatura de tal modo que definem um traço típico da arte brasileira. Ao mencionar o conceito de &quot;performance&quot; em Paul Zumthor,<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> Sabrina Sedlmayer demonstra como a expressão &quot;isto é uma gambiarra&quot; é ao mesmo tempo um reconhecimento da obra e uma atualização da recepção, da produção e do contexto. A jacuba e a gambiarra performariam um oxímoro - o passado e o presente, o velho e o novo, o ser e o não-ser (devir), o eu e o tu - que traduz uma tática especificamente brasileira de se &quot;auto-re-conhecer&quot;.</p>
			<p>Na seção &quot;Das artes e da experiência&quot;, a pesquisadora retoma textos críticos de Lisette Lagnado e Moacir dos Anjos, além de abordar a realização das Olimpíadas do Rio 2016 e as noções de uso para Benjamin e Agamben. A partir de um estudo de Lisette Lagnado sobre a figura do malabarista, de Cildo Meireles, ressalta-se a percepção de que &quot;nem toda alternativa diante da precariedade, do gesto mal-ajambrado, realizado com produtos descartáveis, destinados ao desuso, ao lixo, seja necessariamente gambiarra, e de que nem todo artista consiga equilibrar-se reflexivamente tal qual um malabarista&quot; (19).</p>
			<p>A imagem que salta dessa colocação é a de que a gambiarra é um exercício de pensamento, presente nas interrogações acerca das formas de sobrevivência. A conclusão é que o malabarista e a gambiarra se entrelaçam porque acionam um território, um tipo de discurso com acento político para além da dimensão estética, cuja percepção passa ao largo de qualquer ideia de &quot;pouquidão&quot;, mas, sim, de &quot;oposição&quot; (23).</p>
			<p>No comentário sobre um texto de Moacir dos Anjos, que questiona se haveria alguma marca específica da arte brasileira contemporánea que a distinguiria dos outros países, Sabrina Sedlmayer argumenta com elegante eufemismo que os apontamentos do ensaísta têm potencial cognitivo, porém repetem a discussão já sedimentada pelos Estudos Culturais sobre mestiçagem, sincretismo, crioulização. O avanço de Moacir dos Anjos, apesar da falta de precisão dos conceitos, seria o lançamento do conceito de &quot;gambiarra&quot; como elemento organizador desse debate (23).</p>
			<p>Dessa forma, a reiterada afirmação de que o &quot;toque brasileiro&quot; para suprir a carência tecnológica ou a falta de recurso econômico é a gambiarra não satisfaz nem atende ao debate empreendido. Discursos como os que salientaram a nossa inventividade e o improviso na abertura das Olímpiadas do Rio 2016, ou aqueles que tratam do reaproveitamento de materiais, só invertem a relação hierárquica ao dizerem que o &quot;lixo vira luxo&quot;, algo próximo da carnavalização em Bakhtin, como escreve Sedlmayer.</p>
			<p>Segundo a estudiosa, no cerne desse debate está a &quot;noção de uso&quot;, a qual se relaciona com a figura do jogo em Walter Benjamin e com a &quot;inoperosi-dade&quot; em Giorgio Agamben.<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> A jacuba e a gambiarra seriam operações que cancelam e desativam um velho uso para substituir e criar um novo uso. O fundamento desse gesto está relacionado ao que Agamben pontua sobre a restituição ao uso comum daquilo que outrora era religioso ou sagrado. Em outras palavras, Sabrina Sedlmayer defende que a gambiarra questiona as formas consagradas de uso, uma vez que desativa a &quot;religião capitalista&quot; e sua esfera do consumo, para criar um novo uso do pensamento e dos objetos.</p>
			<p>Muito diferente dos modismos do prefixo &quot;re-&quot; - reutilizar, reusar, renovar, reciclar, refazer - que aparecem comumente como dispositivos da espetacularização, a estudiosa defende que sua tese não faz essa apologia, mas busca pensar os rastros, os ruídos, o efêmero. Projeta-se, então, a necessidade de se problematizar essa zona indiscernível onde a gambiarra atinge sua potência. É nesse lugar que estariam algumas das obras de Rivane Neuenschwander, Cao Guimarães, O Grivo e Guimarães Rosa. Destaque-se, de antemão, que outro ponto comum nessas obras é a forma solidária com a qual convidam seu expectador-leitor a interagir com o trabalho artístico.</p>
			<p>Ao abordar, na seção &quot;Rastros&quot;, a obra de Rivane Neuenschwander, destaca-se o caráter sobrevivente dos trabalhos da artista: além da &quot;Gambiarra&quot; exposta no Museu de Arte da Pampulha, são destacadas também exposições cujos rastros de vida aparecem nas cascas de alho, listas de compras, poeira, cascas de laranja. Ressalta-se também a participação do outro nos trabalhos de Rivane, pois &quot;além de ser um momento de recepção, é também confronto entre recepção e performance&quot; (35).</p>
			<p>É em &quot;Macunaíma olha&quot; que o livro intitulado <italic>Gambiarra,</italic> de Cao Guimarães,<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> é analisado. O artista, semelhante à personagem antropofágica de Mário de Andrade, colhe imagens durante anos em várias cidades do Brasil e da América do Sul. A fotografia reproduzida tem o torso de uma mulher vestindo um sutiã em que uma das alças é segurada por um clipe. Sabrina Sedlmayer dirá que o trabalho de Cao promove uma expansão do termo &quot;gambiarra&quot; quando &quot;aproxima-o, ontologicamente, das noções de sobrevivência e formas de vida&quot; (35). É desse modo que a gambiarra insurge contra os modos de consumo espetacularizados. Na seguinte passagem, há uma das colocações mais precisas da autora: &quot;ato inventado por cada um, qualquer um, que tenha utilizado de astúcia para sanar a adversidade do presente&quot; (37). Percebe-se a insistência em demonstrar que a gambiarra está no limiar entre o uso do comum e a conversão em objeto artístico (fotografia).</p>
			<p>Ao tratar da música em &quot;Quadros de som, músicas de gestos&quot;, aborda-se a produção do coletivo O Grivo e releva-se a descoberta de novos sons e texturas imagéticas no trabalho desse duo mineiro. Os trabalhos reproduzidos no livro são <italic>Máquina lata</italic> e <italic>Piano mecânico,</italic> (40-41). Além dos artefatos que constroem, essa noção de performance deslocada para outra forma de uso &quot;não opera distinção entre sons musicais e ruídos&quot; (45), por conta disso demanda do seu ouvinte uma nova maneira de interação. A gambiarra está justamente nesse lugar da experimentação do som, do ruído, da imagem, da montagem das peças.</p>
			<p>Com Guimarães Rosa, na seção &quot;Do provisório, dos usares&quot;, vem a jacuba, dieta do sertanejo-jagunço ou bandido-soldado, em <italic>Grande sertão: veredas.</italic> A preparação varia de doce para salgado, quente ou frio, sem contar os inúmeros ingredientes que podem ser combinados para enganar a fome.</p>
			<disp-quote>
				<p>A jacuba surge, na prosa de Rosa, como espécie de fórmula que comporta, a um só tempo, o alimento com ingredientes básicos, capaz de temporariamente saciar, e também algo que se assemelha à sua escrita - uma dinámica ousada, sem formas &quot;estáticas, cediças, inertes, estereotipadas, lugares comuns.&quot; (47)</p>
			</disp-quote>
			<p>O provisório da jacuba pode ser a fome que sempre volta e a recombinação dos ingredientes - todavia o resultado é o mesmo. Tal como a gambiarra, Sabrina Sedlmayer demonstra que a criação da jacuba varia, sendo passível de consideráveis alterações da composição, e ainda assim permanece intangível no seu léxico, como se carregasse nela mesma a subjetividade criadora do uso, sem o costumeiro apreço pela materialidade do objeto.</p>
			<p>Na finalização, a autora evidencia como o olhar sobre essas artes perscruta o que há de sobrevivente; aquilo que resiste no limiar do que seria o &quot;original&quot; e a &quot;cópia&quot;, mas sem requerer qualquer <italic>status quo</italic> ao novo objeto. Antes de qualquer conclusão apressada, é bom ressaltar que Sabrina Sedlmayer não confunde gambiarra com desinteresse, falta de potência, suprimento apenas da necessidade básica. Muito pelo contrário, a pesquisadora expõe que a gambiarra é a &quot;relação do <italic>qualquer um</italic> com a civilização tecnológica&quot;, quer dizer, é o interstício da magia com a técnica, é a invenção &quot;material&quot; do presente, é a fome saciada de diversas formas, tudo, sem qualquer perspectiva &quot;vindoura&quot;. É o cotidiano inventado sem espetacularização.</p>
			<p>A conclusão desse estudo já se revela na (im)precisão do título <italic>Jacuba é gambiarra.</italic> A crítica mostra como essa expressão dignamente tautológica é diretamente proporcional à nossa (in)definição identitária brasileira. O pensamento mais latente do livro é o de que vivemos entre a magia e a técnica. Dizer que a criatividade, a espontaneidade e a resiliência são traços ímpares da nossa sociedade não serve de compensação ao, questionável, afastamento do chamado &quot;mundo desenvolvido&quot; - ideia recorrente em diversos &quot;intérpretes do Brasil&quot;, a exemplo de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Antonio Candido, embora nem todos esses sejam diretamente citados.</p>
			<p>Ao dialogar com essa tradição, Sabrina Sedlmayer foge dos binarismos e ufanismos para defender que subjetivamente não há qualquer atraso tecnológico ou carência de pensamento na criação da gambiarra. Fazer gambiarra significaria operar no limite: sem os excessos da vida contemporánea - inventados pela lógica de consumo da sociedade do espetáculo; nem a falta criadora de afetos de sofrimento - como se fosse índice de inaptidão mental desprezar o modelo de evolução hegemonicamente instituído.</p>
			<p>Dessa forma, calcada na leitura de Lévi-Strauss e na forma do <italic>bricolage,</italic> a estudiosa defende uma solidariedade entre o plano técnico e a reflexão mítica, pois a gambiarra não seria antítese da técnica, da mesma forma que magia e ciência também não podem ser colocadas em lados opostos.</p>
			<p>Com esse livro, a autora questiona justamente esse lugar indiferenciado da gambiarra, sugerindo que ela poderia ser uma &quot;espécie de palavra-valise utilizada para suprir certa lacuna nos níveis lexical (vocabulário), pragmático (ação), semántico (cognitivo) e sintático (lógico), ou se sua reiterativa presença no português brasileiro demonstraria, ao contrário, o vigor e a potência que somente um pensamento abstrato é capaz de sustentar&quot; (53).</p>
			<p>O gambiarrista é o sujeito situado entre a experiência do objeto e o conhecimento material deste. Não há a típica distáncia criada entre a abstração e a instrumentalidade. A gambiarra movimenta o objeto e seus sentidos ao mesmo tempo em que cria novos usos. Usos estes que não correspondem a uma falta no sentido do consumo, mas no seu aspecto de preenchimento daquilo que pode e precisa ser aprimorado na vida.</p>
			<p><italic>Jacuba é gambiarra</italic> contribui de forma bastante aguda para a renovação da crítica cultural brasileira. É uma leitura necessária para quem busca se aventurar nos estudos das artes em geral e da literatura. Como já foi dito, tanto pelo método de abordagem quanto pela discussão proposta, é um dos raros livros que consegue a originalidade das ideias sem recair na retumbáncia vazia do embate gratuito; da mesma forma, despreza também a vaidade das conclusões desmedidas. Sem qualquer demérito, agora, é possível afirmar que esse limiar alcançado é digno de uma potente gambiarrista.</p>
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			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Zumthor, Paul. <italic>Performance, recepção, leitura.</italic> Traduzido por Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich, São Paulo, Cosac Naify, 2007.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Agamben, Giorgio. <italic>Profanações.</italic> Traduzido por Selvino José Assmann, São Paulo, Boitempo, 2007, p. 75.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Guimarães, Cao. <italic>Gambiarras.</italic> Série fotográfica (trabalho em andamento). 127 fotografias. Dimensões variadas.</p>
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