Publicado

2026-02-27

Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Habitat and inhabiting: the urgency of an urban poetics. Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Hábitat y habitar: la urgencia de una poética urbana. Henri Lefebvre y las prácticas de apropiación en Brasil

Habitat et habiter: l’urgence d’une poétique urbaine. Henri Lefebvre et les pratiques d’appropriation au Brésil

DOI:

https://doi.org/10.15446/bitacora.v36n1.122364

Palabras clave:

Direito à cidade, Urbanização, Apropriação urbana, Poesia, Brasil (pt)
Right to the city, Urbanization, Urban appropriation, Poetry, Brazil (en)
Derecho a la ciudad, Urbanización, Apropiación urbana, Poesía, Brasil (es)
Droit à la ville, Urbanisation, Appropriation urbaine, Poésie, Brésil (fr)

Autores/as

Este artigo propõe uma releitura crítica do direito à cidade a partir da distinção entre habitat e habitar, com base na filosofia urbana de Henri Lefebvre. Argumenta-se que a crise da habitação não se resolve apenas por meios técnico-administrativos; antes, requer a reativação do habitar enquanto prática simbólica, sensível e criativa. Dialogando com autores como Heidegger e Nietzsche, Lefebvre articula a poiesis e a apropriação como fundamentos de uma nova práxis urbana. A partir dessa chave, o texto examina experiências de ocupação e autogestão no centro de São Paulo, como a Ocupação 9 de Julho, que tensionam a lógica da propriedade e da funcionalização do espaço. Ao reconectar o urbano à linguagem e à criação coletiva, essas práticas não apenas contestam as estruturas da desigualdade espacial, mas também reavivam a cidade como obra poética.

This article proposes a critical rereading of the right to the city based on the distinction between habitat and inhabiting, grounded in Henri Lefebvre’s urban philosophy. It argues that the housing crisis cannot be resolved solely through technical-administrative means; rather, it requires the reactivation of inhabiting as a symbolic, sensuous, and creative practice. In dialogue with authors such as Heidegger and Nietzsche, Lefebvre articulates poiesis and appropriation as the foundations of a new urban praxis. From this perspective, the article examines experiences of occupation and self-management in downtown São Paulo, such as Ocupação 9 de Julho, which challenge the logic of property and the functionalization of space. By reconnecting the urban to language and collective creation, these practices not only contest the structures of spatial inequality but also revive the city as a poetic work.

Este artículo propone una relectura crítica del derecho a la ciudad a partir de la distinción entre hábitat y habitar, con base en la filosofía urbana de Henri Lefebvre. Se argumenta que la crisis de la vivienda no se resuelve únicamente por medios técnico-administrativos; antes bien, requiere la reactivación del habitar como práctica simbólica, sensible y creativa. En diálogo con autores como Heidegger y Nietzsche, Lefebvre articula la poiesis y la apropiación como fundamentos de una nueva praxis urbana. A partir de esta clave, el texto examina experiencias de ocupación y autogestión en el centro de São Paulo, como la Ocupação 9 de Julho, que tensionan la lógica de la propiedad y de la funcionalización del espacio. Al reconectar lo urbano con el lenguaje y la creación colectiva, estas prácticas no solo cuestionan las estructuras de la desigualdad espacial, sino que también reavivan la ciudad como obra poética.

Cet article propose une relecture critique du droit à la ville à partir de la distinction entre habitat et habiter, fondée sur la philosophie urbaine d’Henri Lefebvre. Il soutient que la crise du logement ne se résout pas uniquement par des moyens technico-administratifs ; elle requiert au contraire la réactivation de l’habiter en tant que pratique symbolique, sensible et créative. En dialogue avec des auteurs tels que Heidegger et Nietzsche, Lefebvre articule la poiesis et l’appropriation comme fondements d’une nouvelle praxis urbaine. À partir de cette clé de lecture, le texte examine des expériences d’occupation et d’autogestion dans le centre de São Paulo, telles que l’Ocupação 9 de Julho, qui mettent en tension la logique de la propriété et de la fonctionnalisation de l’espace. En reconnectant l’urbain au langage et à la création collective, ces pratiques ne contestent pas seulement les structures de l’inégalité spatiale, mais ravivent également la ville comme œuvre poétique.

04_122364

Fuente: Autoría propia

Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana.

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Hábitat y habitar: la urgencia de una poética urbana.

Henri Lefebvre y las prácticas de apropiación en Brasil

Habitat and inhabiting: the urgency of an urban poetics.

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Habitat et habiter: l’urgence d’une poétique urbaine.

Henri Lefebvre et les pratiques d’appropriation au Brésil

Carolina Akemi Morita Nakahara

Universidade de São Paulo, Instituto de Arquitetura e Urbanismo

cake.nakahara@usp.br

https://orcid.org/0000-0002-4297-6656

Cómo citar este artículo:

Nakahara, C. A. M. (2026). Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil. Bitácora Urbano Territorial, 36(I): 60-72.

https://doi.org/10.15446/bitacora.v36n1.122364

Recibido: 24/08/2026

Aprobado: 05/02/2026

ISSN electrónico 2027-145X. ISSN impreso 0124-7913. Universidad Nacional de Colombia, Bogotá

(1) 2026: 60-72

Autora

04_122364

Resumo

Este artigo propõe uma releitura crítica do direito à cidade a partir da distinção entre habitat e habitar, com base na filosofia urbana de Henri Lefebvre. Argumenta-se que a crise da habitação não se resolve apenas por meios técnico-administrativos; antes, requer a reativação do habitar enquanto prática simbólica, sensível e criativa. Dialogando com autores como Heidegger e Nietzsche, Lefebvre articula a poiesis e a apropriação como fundamentos de uma nova práxis urbana. A partir dessa chave, o texto examina experiências de ocupação e autogestão no centro de São Paulo, como a Ocupação 9 de Julho, que tensionam a lógica da propriedade e da funcionalização do espaço. Ao reconectar o urbano à linguagem e à criação coletiva, essas práticas não apenas contestam as estruturas da desigualdade espacial, mas também reavivam a cidade como obra poética.

Palavras-chave: direito à cidade, urbanização, apropriação urbana, poesia, Brasil

Resumen

Este artículo propone una relectura crítica del derecho a la ciudad a partir de la distinción entre hábitat y habitar, con base en la filosofía urbana de Henri Lefebvre. Se argumenta que la crisis de la vivienda no se resuelve únicamente por medios técnico-administrativos; antes bien, requiere la reactivación del habitar como práctica simbólica, sensible y creativa. En diálogo con autores como Heidegger y Nietzsche, Lefebvre articula la poiesis y la apropiación como fundamentos de una nueva praxis urbana. A partir de esta clave, el texto examina experiencias de ocupación y autogestión en el centro de São Paulo, como la Ocupação 9 de Julho, que tensionan la lógica de la propiedad y de la funcionalización del espacio. Al reconectar lo urbano con el lenguaje y la creación colectiva, estas prácticas no solo cuestionan las estructuras de la desigualdad espacial, sino que también reavivan la ciudad como obra poética.

Palabras clave: derecho a la ciudad, urbanización, apropiación urbana, poesía, Brasil

Abstract

This article proposes a critical rereading of the right to the city based on the distinction between habitat and inhabiting, grounded in Henri Lefebvre’s urban philosophy. It argues that the housing crisis cannot be resolved solely through technical-administrative means; rather, it requires the reactivation of inhabiting as a symbolic, sensuous, and creative practice. In dialogue with authors such as Heidegger and Nietzsche, Lefebvre articulates poiesis and appropriation as the foundations of a new urban praxis. From this perspective, the article examines experiences of occupation and self-management in downtown São Paulo, such as Ocupação 9 de Julho, which challenge the logic of property and the functionalization of space. By reconnecting the urban to language and collective creation, these practices not only contest the structures of spatial inequality but also revive the city as a poetic work.

Keywords: right to the city, urbanization, urban appropriation, poetry, Brazil

Résumé

Cet article propose une relecture critique du droit à la ville à partir de la distinction entre habitat et habiter, fondée sur la philosophie urbaine d’Henri Lefebvre. Il soutient que la crise du logement ne se résout pas uniquement par des moyens technico-administratifs ; elle requiert au contraire la réactivation de l’habiter en tant que pratique symbolique, sensible et créative. En dialogue avec des auteurs tels que Heidegger et Nietzsche, Lefebvre articule la poiesis et l’appropriation comme fondements d’une nouvelle praxis urbaine. À partir de cette clé de lecture, le texte examine des expériences d’occupation et d’autogestion dans le centre de São Paulo, telles que l’Ocupação 9 de Julho, qui mettent en tension la logique de la propriété et de la fonctionnalisation de l’espace. En reconnectant l’urbain au langage et à la création collective, ces pratiques ne contestent pas seulement les structures de l’inégalité spatiale, mais ravivent également la ville comme œuvre poétique.

Mots-clé : droit à la ville, urbanisation, appropriation urbaine, poésie, Brésil

Introdução: a Permanência do Habitat

Segundo o crítico Charles Jencks, em meados de 1972, a arquitetura moderna encontrava seu fim simbólico com a implosão de parte do conjunto habitacional Pruitt-Igoe, em St. Louis, Missouri. Projetado por Minoru Yamasaki e inaugurado nos anos 1950, o empreendimento incorporava os preceitos da racionalidade funcional moderna – traço recorrente em diversas experiências urbanas do pós-guerra europeu, mais tarde replicadas nas Américas. Composto por 33 blocos lineares que abrigavam mais de 2.800 unidades habitacionais, Pruitt-Igoe sintetizava a crença na padronização da unidade habitacional, no zoneamento rígido e na engenharia social promovida pelo urbanismo moderno.

Hoje, mais de meio século depois, torna-se evidente que a sentença de Jencks, embora eloquente, talvez tenha sido precipitada – ou, ao contrário, excessivamente otimista. A transformação do habitar, entendido como totalidade urbana, em habitat, uma unidade funcional, fragmentada e reducionista da atividade de morar, passou a definir, de forma inescapável, o tom e o ritmo das demandas urbanas posteriores. É a partir dessa clivagem que este artigo se propõe a interrogar os desdobramentos teóricos e práticos da radicalização das diferenças entre o habitat e o habitar.[1] Em particular, postula-se que um mergulho nos sentidos poéticos inscritos no habitar pode revelar elementos de uma prática arquitetônica e urbana criativa, historicamente preterida pelos regimes técnicos e funcionais de produção do espaço.

As raízes dessa problemática remontam ao pós-guerra, período em que se intensificou a racionalização da moradia como política de massa (Lefebvre, 1968). A partir desse momento, a produção da cidade se aproxima cada vez mais da lógica da reprodução espacial de fórmulas de investimento e de rentabilidade próprias da acumulação do capital (Arantes, 2009). A associação profícua entre investimento econômico e planejamento urbano, unidos num só movimento, cria a “cidade-como-palco”, cenário em que o planejador, transfigurado em empreendedor ou investidor, passa a atuar no sentido de consolidar as cidades como verdadeiras “máquinas de crescimento” ou “produtoras de riquezas” (Hall, 2007, pp. 407-15).

Vejamos, por exemplo, alguns casos brasileiros em que a ampla – e, muitas vezes, polêmica – expansão de programas habitacionais emblemáticos, como o Minha Casa, Minha Vida (PMCMV),[2] particularmente em áreas periféricas (Amore et al., 2015), não apenas contraria as previsões de Jencks, mas evidencia a consolidação de signos próprios de uma existência monádica e mercantilizada, confinada ao habitat. Entre 2020 e 2025, foram inaugurados dois dos maiores empreendimentos vinculados ao PMCMV até então: o Grand Reserva Paulista (Figuras 01 e 02) e a Cidade dos Sete Sóis, ambos localizados em Pirituba, bairro periférico na zona norte de São Paulo.

Executados pela mesma incorporadora, a MRV, tais empreendimentos configuram verdadeiros colossos urbanos que, embora promovidos sob a retórica da sustentabilidade, reproduzem intensamente os paradigmas da padronização tipológica e da segregação socioespacial. O primeiro abriga cerca de 7 mil unidades habitacionais distribuídas em 48 torres idênticas; o segundo, mais de 11 mil apartamentos organizados em 65 blocos com características semelhantes. Ainda que contenham equipamentos públicos e áreas verdes inseridos como dispositivos legitimadores da intervenção, trata-se de cidadelas contemporâneas, destituídas de qualquer conexão urbana e que operam segundo uma lógica de encapsulamento socioespacial.

Assim, a miséria urbana escancara-se não apenas na precariedade das favelas e dos assentamentos informais, simbolicamente contrapostos aos enclaves fortificados dos condomínios fechados (Caldeira, 2000; Rolnik, 2017), mas também nos projetos concebidos pelo próprio campo disciplinar da Arquitetura e do Urbanismo, quando, sob o véu do voluntarismo técnico, traçamos tanto os espaços formalmente produzidos quanto os contornos do que pode ser desejado.

Sob a égide da propriedade privada e dos assim chamados novos cercamentos, a comodificação do espaço urbano anuncia a primazia da lucratividade e da produtividade, em detrimento de se pensar a arquitetura e as relações espaciais propriamente ditas (Ferreira, 2012). A morfologia urbana resultante, necessariamente segregadora e seletiva – uma vez que “não é todo o planeta que interessa ao capital, mas somente partes dele” (Chesnais, 1996, pp. 17-8) –, configura-se a partir das diretrizes do briefing (Shimbo, 2010, p. 214). Este, por sua vez, não é apenas elaborado com base em orçamentos e cronogramas físico-financeiros: é também orientado pelas flutuações do mercado, através de diversos índices e coeficientes urbanos que determinam o grau de aproveitamento e a suposta eficiência do projeto arquitetônico.

Para Lefebvre (1991), trata-se de uma sociedade que renunciou à sua capacidade criadora, entregando-se à repetição indefinida – sintoma de um pensamento que, como advertia Milton Santos (1993), permanece preso à matriz econômica, sem conseguir elaborar um modelo cívico e espacial alternativo. No Brasil, essa dinâmica é amplamente analisada por uma literatura crítica que evidencia o agravamento das desigualdades urbanas sob a hegemonia neoliberal, em que a financeirização e a mundialização – traços da “mais longa fase de acumulação ininterrupta do capital” (Chesnais, 1996, p. 34) – transformam a moradia e o espaço urbano em ativos de lucro e renda (Fix & Paulani, 2019).

Nesse contexto, a participação e o direito à cidade, antes expressões de disputas concretas e irrupções urbanas, são assimilados pela lógica da propriedade privada e se autonomizam: a participação naturaliza-se no consumo, entendido como único elemento autêntico da cidade (Tafuri, 1985); o direito à cidade é reduzido a uma agenda tecnocrática centrada na provisão habitacional, o que desloca seu conteúdo radical para um vocabulário conciliador e operacional (Tavolari, 2015); e a apropriação do espaço formaliza-se como comportamento (Lefebvre, 1991). Como aponta o próprio Lefebvre (1991, p. 162), reivindicações relativas à moradia, ao trabalho, ao lazer e à educação tendem a ser inscritas em um ‘plano moral e jurídico’ e, cooptadas como parte da estratégia estatal, tornam-se incapazes de romper com o código hegemônico que se impõe sobre a cidade.

Não se trata aqui de reiterar os já amplamente discutidos argumentos sobre as formas de comodificação e financeirização da moradia e do espaço urbano. O ponto de partida, neste caso, é uma provocação de Henri Lefebvre, formulada ainda na década de 1960: “a alienação tecnológica é hoje comum ao socialismo e ao capitalismo” (Lefebvre, 1969, p. 271). Já naquele momento, o filósofo desnudava as engrenagens de um processo de mundialização que, paradoxalmente, apresentava-se como um mundo estagnado pela tecnicidade – “cheio como um ovo de técnicas e de máquinas humanas, vazio de vida autêntica” (Lefebvre, 1969, p. 259). Nesse movimento dialético, o processo de acumulação, ao expandir-se globalmente – ao tornar-se o próprio mundo –, implicava o estreitamento dos horizontes da vida cotidiana, da imaginação e dos desejos. E isso tanto à direita quanto à esquerda.

Esse diagnóstico orienta a reflexão aqui desenvolvida sobre as diferenças entre o habitat e o habitar, ao colocar em questão os limites de uma racionalidade arquitetônica que permanece enredada no léxico técnico-funcional. Como alertava Lefebvre, a racionalidade que rege o pragmatismo ancorado na esfera econômica não é privilégio de um pensamento de direita, mas se encontra entranhado nas esquerdas, quando se mostram incapazes de expressar suas demandas urbanas a não ser enunciando a mesma gramática funcionalista que estamos acostumados.

Com enfoque no Brasil e a partir do reconhecimento da chave conceitual que foi amplamente disseminada por aqui para atender as demandas urbanas, o artigo chama a atenção para a urgência de se considerar a esfera poética na produção – e criação – das cidades. Em especial, direciona-se a crítica a abordagens que subordinam a experiência urbana à lógica técnica da provisão habitacional, assumindo que o simples acesso à moradia resolveria, por consequência, o conjunto de demandas do habitar.

O Direito à Cidade no Brasil:
os Imaginários Normativos do Habitar

Para compreender como as transformações urbanas se articularam aos discursos de cidadania e aos imaginários normativos que estruturam a ação política contemporânea, é necessário revisitar a trajetória conceitual do direito à cidade no Brasil, especialmente sua apropriação durante os processos de redemocratização. Como ponto de partida, destacamos uma observação de James Holston que sintetiza a confluência entre produção intelectual crítica e ação política neste momento:

Mais importante para a “guinada para os direitos” nos movimentos sociais urbanos foi a influência do trabalho de Henri Lefebvre sobre o “direito à cidade” e a “vida cotidiana” como arenas para a luta política, o de Manuel Castells sobre a “questão urbana e os movimentos sociais” e o de David Harvey sobre “a justiça social e a cidade”. Essas ideias conquistaram a imaginação de planejadores, arquitetos, advogados e cientistas sociais, que promoveram os movimentos sociais urbanos e acabaram se tornando líderes de ONGs e de governos locais. Ademais, eu ressaltaria a importância dos argumentos liberais clássicos em defesa do estado de direito e do respeito aos direitos à propriedade privada e à cidadania política, que também acomodaram ampla coalizão contra a ditadura e ajudaram a legitimar os direitos como a moeda corrente de um projeto nacional de democratização. (Holston, 2013, p. 438, nota 9)

Essa abordagem crítica nos leva à indagação central proposta pelo autor: por que a sociedade brasileira se constituiu com base nos discursos dos direitos, mesmo diante das tensões e contradições internas a esse projeto, sobretudo à luz dos debates intelectuais ancorados na tradição marxista? Isso em um contexto em que se vinha questionando, há quase uma década, o uso vulgar e normativo de Marx (Schwarz, 1999). A resposta se estrutura a partir de uma miríade de articulações que atravessam deslocamentos teóricos, inflexões políticas e reconfigurações disciplinares.

Uma primeira dimensão dessa resposta se delineia quando, como observa Evelina Dagnino (1998), entre as décadas de 1970 e 1980, importantes setores da esquerda e dos movimentos sociais no Brasil passaram por uma inflexão teórica e política. A hegemonia da abordagem marxista clássica foi gradualmente substituída por uma perspectiva gramsciana, mais atenta à articulação entre cultura e política. Esse deslocamento catalisou interpretações mais pragmáticas da democracia, aproximando-a da noção de direito como instrumento de luta e inclusão.

É nesse mesmo contexto de reorientações teóricas e políticas que o livro-manifesto Le Droit à la ville foi traduzido para o português e o espanhol, em 1969, apenas um ano após sua publicação original em francês, em um movimento editorial incomum para a obra lefebvriana. Essa difusão precoce coincidiu com o recrudescimento das ditaduras militares na América Latina e, simultaneamente, com o esforço de núcleos acadêmicos e estudantis de incorporar novos referenciais teóricos para interpretar as disputas urbanas (Jorge & Lelis, 2012). Diante desse cenário de repressão e busca por alternativas, muitos contextos passaram a adotar – ou resignar-se com – formas de reivindicação menos abruptas, mais alinhadas com os marcos da institucionalidade democrática.

A recepção ambivalente do pensamento lefebvriano no Brasil pode ainda ser explicada por outros fatores. Em escala internacional, a obra de Henri Lefebvre foi progressivamente marginalizada após o refluxo das revoltas de maio de 1968, eclipsada pela ascensão do estruturalismo e do pós-estruturalismo de matriz althusseriana – tanto no campo da teoria social quanto, mais especificamente, na arquitetura e no urbanismo, com autores como Massimo Cacciari, Manuel Castells e Manfredo Tafuri (Anderson, 1985; Shields, 2002).

Perry Anderson (1985, pp. 35-8) assinala que o cenário intelectual da Europa latina testemunhava uma “derrota frontal” do marxismo diante do estruturalismo, conduzindo, de modo quase inevitável, ao isolamento de Lefebvre, que seguiu produzindo um “trabalho imperturbável e original sobre temas tipicamente ignorados por boa parte da esquerda”. Rob Shields (2002), por sua vez, acrescenta que, embora Lefebvre tenha criticado os limites do marxismo ortodoxo e ampliado o debate para o espaço e a vida cotidiana, sua obra permaneceu relativamente alheia às discussões emergentes sobre identidades sociais, opressões étnico-raciais e multiculturalismo. Essa lacuna, associada a uma abordagem fortemente filosófica e pouco empírica, pode ter contribuído para a recepção restrita de seu pensamento em contextos como o brasileiro.

Diante disso, como aponta Tavolari (2015), no momento em que as lutas por moradia ganhavam centralidade na agenda dos movimentos urbanos, autores como Manuel Castells e David Harvey, mais alinhados ao marxismo estrutural, passaram a exercer influência decisiva. Nesse contexto, o direito à cidade passou a operar como emblema aglutinador de pautas heterogêneas, conferindo coesão a lutas que buscavam incorporar ao campo da esquerda agendas historicamente marginalizadas: étnico-raciais, de gênero e culturais. A “luta por direitos” aparecia, assim, condicionada à “luta pelo direito de ter direitos” (Dagnino, 1998, p. 47), equiparando as noções de democracia e cidadania ao habitar urbano.

Contudo, à medida que o direito à cidade se generalizava sob a forma de acesso a serviços e equipamentos urbanos, tornava-se visível o descompasso conceitual entre Lefebvre e Castells: enquanto este conferia à moradia um ponto privilegiado de ancoragem das mobilizações sociais, aquele a via como elemento secundário – e até mesmo deletério – diante da necessidade de uma crítica mais ampla à produção do espaço urbano, diferença que se expressa, em última instância, na oposição entre habitat e habitar.

Ainda que os movimentos sociais tenham desempenhado papel decisivo na redemocratização em diversos países da América Latina, sua institucionalização implicou tensões significativas. Conforme argumenta Dagnino (2004a), a ênfase excessiva na inserção institucional das lutas sociais levou, com frequência, à priorização de pautas compatíveis com os marcos da democracia representativa em construção. Propostas dissidentes ou que escapassem a essa lógica normativa eram frequentemente descartadas ou desvalorizadas. Prevaleceu, nesse contexto, uma abordagem tecnocrática e funcionalista, centrada na “engenharia institucional” (Dagnino, 1998, p. 46), que operava como filtro para aquilo que se mostrava útil à consolidação democrática.

Conformava-se, assim, um verdadeiro “sistema de álibis” – para utilizar a terminologia lefebvriana –, que atuava como aliado de um “modo de dominação gestionária” (Boltanski, 2013, p. 448). Esses dispositivos, denominados “conexionistas por justiça” ou “de reintegração”, são típicos da “cidade por projetos” (Boltanski & Chiapello, 2020), em um ambiente que relega os citadinos à condição de “participantes de uma mercantilização crescente”, conforme alertado por Tafuri (1985, p. 57).

No Brasil, a convergência entre os aportes teóricos de Henri Lefebvre e Manuel Castells mostrou-se particularmente fecunda no processo de elaboração e consolidação do Estatuto da Cidade. Enquanto a concepção de direito à cidade, proposta por Lefebvre, oferecia um horizonte simbólico e político robusto, as demandas por moradia e acesso a serviços públicos, fundamentadas nas análises de Castells, forneciam diretrizes operacionais para a atuação institucional. No entanto, nesse processo de normatização jurídico-política, a contribuição lefebvriana foi absorvida sobretudo como enunciado simbólico – convertido em palavra de ordem, “guarda-chuva” conceitual ou “grito de guerra” (Schmid, 2012, p. 42) –, desconectado de suas implicações filosóficas mais radicais. Essa dissociação ajuda a explicar a ampla difusão do termo no Brasil, justamente em função de sua plasticidade e adaptabilidade a agendas institucionais, mesmo quando desvinculado da crítica estrutural que originalmente o sustentava (Tavolari, 2015).

O panorama delineado permite compreender como, no contexto brasileiro, a noção de habitat passou a operar dentro de uma lógica de substituições simbólicas, na qual termos como participação, cidadania e direitos – esvaziados de seu conteúdo político original – funcionam como meros álibis. Isso ajuda a elucidar por que o direito à cidade foi gradualmente reduzido à busca por soluções técnicas para aquilo que Gabriel Bolaffi (1986) denominou de “falso problema”. Tal deslocamento remonta ao período da ditadura militar, quando se consolidou o ideal da casa própria em detrimento de outras formas de política urbana e de regulação fundiária (Bonduki, 2016) – amplamente instrumentalizado por dispositivos estatais, legislações trabalhistas e mecanismos de crédito e financiamento imobiliário, os quais engendraram uma forma de programação da vida assentada numa espécie de biopolítica da dívida (Martins, 2019).

Mesmo com a redemocratização, tais instrumentos permaneceram operantes, convertendo-se em verdadeiros “fatos políticos” com alto valor eleitoral (Rolnik, 2017, p. 293). Nas décadas de 1980 e 1990, a moradia passou a ser tratada como um déficit a ser superado, por meio de políticas que vinculavam o “fazer de cada brasileiro um proprietário” à dinamização de transações de mercado, ao estímulo à indústria da construção civil e à captação de capitais internacionais (Rolnik, 2017, p. 269). O Estatuto da Cidade, aprovado em 2001, consagra a moradia como um direito constitucional – configurando-se como corolário desse processo, que permanece em curso até os dias atuais.

Nos últimos anos – e de forma particularmente intensa durante a pandemia de COVID-19 –, o confinamento espacial e o isolamento doméstico intensificaram os efeitos da lógica funcionalista, revelando os limites de uma vida urbana organizada a partir da célula habitacional. Da reconfiguração familiar e profissional do sujeito endividado, passando pela concepção arquitetônica de apartamentos cada vez mais compactos e operacionais, até a retração da esfera pública em favor da clausura alienada do lar monádico, tudo obedece a essa racionalidade. Há, em curso, um adestramento sistemático, sustentado por mecanismos compensatórios diversos que tentam dissimular tanto a precariedade da experiência urbana quanto a supressão das possibilidades de existência coletiva – ou do “mundo comum”, para utilizar a terminologia arendtiana.

Em última instância, é a cidade que sai prejudicada e, com ela, uma das dimensões mais fundamentais do habitar. A proporção e a celeridade com que esses empreendimentos são projetados e executados, associados a múltiplos interesses econômicos e políticos, reproduzem modelos urbanos historicamente marcados pela fragmentação espacial: a separação rígida entre centro e periferia, a zonificação monofuncional, a segregação socioespacial, a verticalização excludente, a gentrificação e a proliferação de espaços privatizados e fortificados. Configura-se, assim, uma cidade marcada pelo medo, pela ausência de espaços comuns e pela rarefação das arenas públicas de convivência e conflito – tudo o que contraria a concepção lefebvriana do habitar como práxis e poiesis coletiva.

Em uma das raras passagens em que delimita de forma mais precisa o direito à cidade, Lefebvre o define como o direito “à vida urbana, à centralidade renovada, aos locais de encontro e de trocas, aos ritmos de vida e empregos do tempo que permitem o uso pleno e inteiro desses momentos e locais” (Lefebvre, 2016a, p. 139). Não obstante, como parte indissociável da forma urbana, afirma-se também o “direito à diferença” – isto é, “o direito a não ser classificado à força em categorias determinadas por potências homogeneizantes” (Lefebvre, 1973, p. 38). Como enfatiza o próprio autor, esse direito à diferença não se concede por decreto, mas se conquista na prática e na luta:

O direito à diferença não garante nenhum direito que não tenha sido conquistado por meio de luta árdua. Esse “direito” é válido apenas por seu conteúdo, em oposição ao direito à propriedade, que é válido por sua forma lógica e legal, princípio do código das relações normais dentro do modo de produção capitalista. (Lefebvre, 2000, p. 457, tradução nossa)

Esse deslocamento no entendimento da violência desvela a lógica totalizante – e, por que não dizer, fascista – que permeia não só a indústria cultural e os meios de comunicação, mas também os modos contemporâneos de produção do espaço e reprodução da vida cotidiana. Trata-se de uma violência silenciosa e estrutural, ancorada na homogeneização da cidade e no pensamento único que orienta sua configuração. Uma violência que não elimina a desigualdade nem acolhe a diferença, mas as transforma em fragmentos funcionais, convertendo-as em matéria-prima para a engrenagem rentável da urbanização capitalista. Em vez de resolver os conflitos, essa lógica os absorve e os neutraliza, moldando comportamentos e subjetividades de acordo com os imperativos do mercado.

Poiesis: Apropriação, Não Propriedade

O ponto de partida para uma releitura crítica do direito à cidade, em nossa hipótese, encontra-se na poiesis. Embora vinculado à tradição marxista, Lefebvre não se furta a dialogar criticamente com autores como Heidegger e Nietzsche, propondo uma concepção do espaço ancorada no Topos e no Logos – ou seja, no lugar enquanto código e enquanto linguagem.

Tomamos como inflexão teórica a provocação formulada por Heidegger (2012a, p. 140): “por mais difícil e angustiante, por mais avassaladora e ameaçadora que seja a falta de habitação, a crise propriamente dita do habitar não se encontra, primordialmente, na falta de habitações”. Essa reflexão já estava esboçada no ensaio “... Poeticamente o homem habita...” (Heidegger, 2012b) – citado por Lefebvre –, decorrente dos primeiros seminários do filósofo, cujo título remete a uma passagem de Friedrich Hölderlin. O texto se inicia com uma pergunta central: “não será o habitar incompatível com o poético? Nosso habitar está sufocado pela crise habitacional”, visto que “o que hoje se entende por habitar está açulado pelo trabalho, revolvido pela caça de vantagens e sucesso, enfeitiçado pelo lazer e descanso organizados” (Heidegger, 2012b, 165).

Heidegger nos incita a buscar a essência do habitar, entendendo que ela só se torna acessível e efetiva no horizonte da linguagem. Ao retomar o sentido originário da palavra bauen – do alemão, traduzido como “construir”, mas também como “morar”, “cultivar”, “proteger” – o filósofo argumenta que não se deve reduzir o ato de construir à sua dimensão técnica, instrumental ou teleológica. Habitar constitui o núcleo do ser do homem e, embora envolva a prática do construir, não pode ser esvaziado de sua densidade semântica original. Os múltiplos sentidos do habitar – de cultivar, proteger – leva necessariamente a considerar as relações entre o cotidiano e a linguagem – seus códigos, símbolos, paradigmas, a saber, aquilo que percebemos como “habitual” (Heidegger, 2012a, pp. 127-128).

As passagens aqui citadas, por vezes marginalizadas na leitura crítica, propõem uma inversão radical entre o habitar e o edificar, pois: “não habitamos porque construímos. Ao contrário: construímos e cultivamos à medida em que habitamos, ou seja, à medida em que somos como aqueles que habitam” (Heidegger, 2012a, p. 128). É nesse ponto que Heidegger oferece uma contribuição decisiva. Mais do que denunciar a escassez de moradias, ele aponta para o esquecimento do que significa, em sua essência, habitar. A crise habitacional, assim compreendida, revela-se como sintoma de um desenraizamento mais profundo, que compromete a própria condição do ser-no-mundo – ela se apresenta porque desaprendemos a habitar. Pois a crise do habitat não é recente, tampouco meramente conjuntural – ela antecede guerras ou explosões populacionais. O habitat, reduzido a objeto técnico-administrativo, torna-se um véu que oculta o verdadeiro problema: a crise do próprio habitar.

Habitar remete ao morar em seu sentido mais profundo: permanecer, deter-se, um “demorar-se junto às coisas” (Heidegger, 2012a, p. 131), fazer lugar, encontrar abrigo, tornar seu – isto é, apropriar-se.

Situar o habitar no plano da linguagem e da vivência cotidiana permite compreender, ao menos em parte, a crítica de Lefebvre à neutralização da experiência urbana. Ao afirmar que “intervindo na questão da habitação, o Estado modificou a prática, mas não o código” (Lefebvre, 1991, p. 162), o autor revela a insuficiência de soluções técnico-administrativas que ignoram o habitar enquanto prática simbólica e sensível. Ainda assim, Lefebvre (2016b) considera a reflexão heideggeriana excessivamente abstrata e nostálgica, com pouca aderência à realidade urbana contemporânea. Propõe, portanto, uma aproximação entre poiesis e práxis, buscando uma ancoragem concreta – não apenas material, mas, sobretudo, social.

A emergência das cidades oferece um exemplo paradigmático da atuação conjunta entre poiesis e práxis em um processo criativo. A primeira molda a realidade concreta – suas formas, códigos, símbolos e significados –, enquanto a segunda organiza as ações humanas e sociais, instituindo modos de convivência e estruturas coletivas. Completando essa tríade, a mímesis atua como mediação: repetição ou imitação que permite articular o movimento criativo da poiesis (a poética dos conteúdos) à necessidade de constituir pontos estáveis de ancoragem – as formas sociais que sustentam a prática. É apenas em um momento posterior que essas instâncias se separam, no contexto da repetição burocratizada da vida cotidiana. Nesse ponto,

Poiesis esquece que é também práxis: ação sobre os homens por meio das obras e da fala, educação, formação, fundação. Quanto à práxis, ela se estabelece no plano das trocas pelo discurso, pelo comércio, pelos contratos. Esquece que foi inicialmente poiesis: criação de um mundo humano habitado e habitável, morada de uma verdade na comunidade. (Lefebvre, 2016b, p. 152, tradução nossa)

Quanto à mímesis, esta se reduz à repetição monocórdia, à reprodução mecânica que esvazia o sentido original da criação.

Esse panorama oferecido por Lefebvre permite elucidar ao menos dois aspectos fundamentais relacionados à arquitetura e ao habitar. Em primeiro lugar, poiesis, além de modelar criativamente o mundo material, vincula-se ao pensamento e às suas representações. Nesta segunda acepção, ela implica um verdadeiro “jogo com as instituições” – isto é, a capacidade de tensionar, deformar e transformar padrões normativos enrijecidos – manifestando-se como impulso criativo e abertura ao novo. Isso nos conduz ao segundo ponto: ao falarmos de representações, não se pode ignorar o papel decisivo da imaginação – elemento central, embora frequentemente negligenciado, no campo da arquitetura e da experiência do habitar. Lefebvre aprofunda esse entendimento:

Poiesis é, portanto, o criador de obras [oeuvres]. Inclui a fundação de instituições e decisões com consequências ilimitadas, mesmo que às vezes passem despercebidas por longos períodos. Assim, nem toda criação é poiesis, mas toda poiesis é criação. “Poesia” restringe o significado da palavra. (...) a tecnologia e a invenção técnica ficarão fora do campo da poiesis. As tecnologias podem muito bem dominar a “natureza” (o mundo externo) e, portanto, ser necessárias, mas não são suficientes para permitir que os seres humanos se apropriem de sua própria natureza. Uma distinção vital na determinação dos limites da tecnologia dentro da modernidade e na definição correta da alienação tecnológica. (Lefebvre, 2016b, p. 27, tradução nossa)

Ao trazer esse apelo à tona, o pensamento poético-filosófico reabre o horizonte da apropriação não como posse, função ou dominação (técnica), mas como gesto criador: uma transformação partilhada do mundo comum e de seus próprios significados. Em certo sentido, podemos compreender a apropriação como o próprio processo de subjetivação do mundo – elemento central da modernidade (Ferry, 2003) –, no qual se rompe com normas heterônomas para traçar um horizonte possível de emancipação.

Possíveis Imagens de uma Poesia Urbana:
as Ocupações

Numa metrópole tão contraditória quanto São Paulo – onde o número de imóveis particulares ociosos supera o de pessoas em situação de rua –, as ocupações urbanas reconfiguram os imaginários sociais da habitação, desafiando a lógica normativa da propriedade privada e abrindo caminhos para um fazer poético urbano. Um caso exemplar é o da Ocupação 9 de Julho, localizada no centro da cidade e organizada pelo Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), que ultrapassa o paradigma do abrigo funcional e se afirma como espaço de produção simbólica e experimentação política e poética.

Particularmente aos finais de semana, os limites da moradia se diluem, à medida que o edifício é atravessado por práticas cotidianas compartilhadas, oficinas, eventos culturais e diversos grafismos que se inscrevem na materialidade do edifício (Figuras 03 a 05). A Cozinha da Ocupação, organizada segundo princípios de autogestão e economia solidária, transforma o ato de alimentar em gesto político e comunitário, enquanto a atuação de mulheres como Carmen Silva – urbanista, professora e uma das líderes do MSTC – evidencia a força micropolítica dessas práticas e a emergência de protagonismos historicamente eclipsados no debate urbano. Tais dinâmicas desafiam os regimes de reconhecimento e exclusão (Butler, 2019), redistribuem os regimes de sensibilidade – a “partilha das identidades, das atividades e dos espaços” no mundo comum de Rancière (2009, p. 17) – e reconfiguram os regimes de visibilidade que moldam a percepção da miséria urbana e da segregação, evidenciando o espaço como mediador das disputas por legitimidade e instrumento da práxis (Lussault, 2022).

Outras experiências emblemáticas incluem as ocupações Dandara, Maria Domitila, Cambridge e Lord, todas localizadas no centro de São Paulo, que contaram com o apoio de coletivos e assessorias técnicas de arquitetura, evidenciando assim a potência do trabalho colaborativo na requalificação de estruturas urbanas existentes. As lideranças envolvidas nas lutas por moradia incluem, além do MSTC, o movimento Unificação das Lutas de Cortiços e Moradias (ULCM), a Frente de Luta pela Moradia (FLM) e o Movimento de Moradia Central e Regional (MMCR), além de associações e organizações da sociedade civil. Apenas o MMCR é responsável por outras quatro ocupações no centro da cidade: José Bonifácio, Caetano Pinto, Rio Branco e Ipiranga.

Vale destacar que, na maioria desses casos, os processos de regularização têm ocorrido por meio da vertente Entidades do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV-E), que se orienta por uma lógica não apenas participativa, mas autogerida em todas as etapas de concepção e execução dos projetos. Essa modalidade tem atuado de forma mais significativa nos últimos vinte anos e, embora sua produção ainda seja bastante modesta – especialmente se comparada aos grandes conjuntos habitacionais mencionados no início deste texto –, aponta para um campo estratégico a ser disputado. O que se torna ainda mais relevante no contexto das ocupações urbanas, frequentemente alvo de estigmas e difamações, em um país onde o questionamento da propriedade privada – seja no plano da legalidade, seja no da legitimidade – permanece como um verdadeiro tabu.

Nesses casos, o que se desloca não é apenas o modo de produzir habitação, mas o próprio campo do desejo: se antes o horizonte do possível se restringia ao acesso ao habitat – entendido como propriedade e unidade funcional –, as ocupações reinscrevem o desejo de habitar a cidade, isto é, de se apropriar coletivamente de seus espaços e usos. Nesse contexto, a arquitetura deixa de operar como instância de resolução funcional de uma agenda previamente definida para atuar como mediação espacial de conflitos e desejos ainda não inteiramente formulados. Ainda que frequentemente enquadrada como assistência técnica, a prática do arquiteto passa a atuar em um campo poético e político, tensionando os limites do que pode ser desejado no espaço urbano.

Indício disso é o edifício Prestes Maia, atualmente reconhecido como a maior ocupação vertical da América Latina (Santandeu, 2018), que se destaca por ter sido recentemente enquadrado como um “retrofit de habitação social” (Prefeitura de São Paulo, 2025). Após décadas marcadas por conflitos, essa conquista tensiona os limites entre posse e uso, entre legalidade e legitimidade, e inscreve a apropriação coletiva como forma legítima de produção urbana – capaz de disputar sentidos e lugares frente à propriedade privada.

Nos exemplos aqui elencados, o direito à cidade não se limita ao mero acesso à moradia ou a equipamentos urbanos – embora essenciais, esses elementos ainda operam dentro da lógica da sobrevivência e da economia espacial (Lefebvre, 2000). O que as ocupações revelam é outra possibilidade de existência urbana, na qual a cidade volta a ser compreendida como obra e o espaço como lugar de invenção. Ao desestabilizarem normas institucionais e atuarem nos interstícios da legalidade, essas práticas ativam um sentido genuinamente poético do urbano: uma transformação do código, do signo e do uso, capaz de converter ruínas em símbolos de resistência e desejo coletivo. Com efeito, os paradigmas usuais de nossa gramática urbana – o dentro e o fora, o público e o privado, o legal e o ilegal, o próprio e o outro, o individual e o comum – deixam de operar como estamos habituados, sendo deslocados por formas de vida que inventam novas regras, sentidos e pertencimentos no espaço da cidade.

Como observa Lefebvre, o espaço do capital opera sob uma lógica de distanciamento e segmentação – um espaço abstrato, silencioso, aparentemente neutro, que esconde a luta de classes sob a ideologia do consenso. Nele, impera a estratégia da propriedade: “o que é seu não é meu, lugares e coisas” (Lefebvre, 2000, p. 69, tradução nossa). E, no entanto, subsistem lugares comuns, espaços partilháveis – cafés, praças, monumentos – cuja apropriação simbólica e coletiva resiste à privatização total.

Diante das limitações dos canais democráticos convencionais, a subversão espacial ganha contornos de prática política legítima. As ocupações escancaram a assimetria do conflito urbano e afirmam que, mais do que mero palco, o espaço é agente, instrumento e mediação da disputa. Nesse sentido, o direito à cidade não se configura como mera demanda institucional, mas como gesto insurgente: uma poética do habitar que, mesmo sob ameaça, insiste em abrir brechas para um mundo comum.

Considerações Finais

Retomar o direito à cidade, à luz de Lefebvre, exige mais do que políticas públicas pontuais ou soluções técnico-administrativas: demanda uma mudança de linguagem, de código e de sensibilidade. Ao distinguir o habitat como espaço funcionalizado da habitação e o habitar como dimensão simbólica, poética e coletiva, o pensamento lefebvriano nos convida a reimaginar a cidade como obra – e não como produto. É nesse sentido que a noção de poiesis adquire centralidade: como impulso criativo que liga o fazer ao sentido, a experiência à linguagem, e reabre à arquitetura a possibilidade de atuar não apenas como técnica de provisão, mas como mediação na invenção do comum.

Nas ocupações urbanas – e em tantas outras formas cotidianas de resistência e reinvenção – pulsa uma poética do espaço que resiste ao esquecimento e à mercantilização da vida. Ali, o habitar deixa de ser mera função e torna-se expressão, valor de uso, fruição sensível. Em tempos de expropriação e desenraizamento, marcados por uma urbanização reduzida à monotonia repetitiva – em que impera uma nota só –, talvez seja justamente na poesia do espaço e na prática da apropriação que resida nossa chance mais concreta de reconstruir o mundo comum: um espaço onde outras vozes possam ressoar.

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LISTA DE ABREVIAÇÕES USADAS NESTE ARTIGO

FLM: Frente de Luta pela Moradia

MSTC: Movimento Sem Teto do Centro

MMCR: Movimento de Moradia Central e Regional

PMCMV: Programa Minha Casa, Minha Vida

PMCMV-E: Programa Minha Casa, Minha Vida Entidades

ULCM: Unificação das Lutas de Cortiços e Moradias


  1. [1] Parte da discussão aqui apresentada resulta da pesquisa de doutorado realizada pela autora. Cf. Nakahara, C. A. M. M. (2021). Do habitat ao habitar poiético: participação, apropriação e utopia em Henri Lefebvre. (Tese de doutorado). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. https://doi.org/10.11606/T.16.2021.tde-10012022-130103

  2. [2] Iniciativa federal que oferece subsídios e financiamento para aquisição, construção ou reforma de moradias, com o objetivo de reduzir o déficit habitacional no Brasil. Entre 2023 e 2025, o programa cresceu 19%, passando a representar mais de 50% dos empreendimentos imobiliários lançados (CBIC, 2015).

Carolina Akemi Morita Nakahara

Professora doutora no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP), na área de Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo. Graduada em Arquitetura e Urbanismo (EESC-USP, 2004) e em Filosofia (FFLCH-USP, 2021), é mestre pelo IAU-USP (2011) e doutora pela FAU-USP (2021), com a tese Do habitat ao habitar poiético: participação, apropriação e utopia em Henri Lefebvre. Integra os grupos NEC (IAU-USP) e PC3 (FAU-USP). Desenvolve pesquisas em pensamento crítico urbano, com ênfase nos sentidos do habitar e nas relações dialéticas entre práxis e poiesis na produção do espaço.

Autora

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana.

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Esse diagnóstico orienta a reflexão aqui desenvolvida sobre as diferenças entre o habitat e o habitar, ao colocar em questão os limites de uma racionalidade arquitetônica que permanece enredada no léxico técnico-funcional.

Como alertava Lefebvre, a racionalidade que rege o pragmatismo ancorado na esfera econômica não é privilégio de um pensamento de direita, mas se encontra entranhado nas esquerdas, quando se mostram incapazes de expressar suas demandas urbanas a não ser enunciando a mesma gramática funcionalista que estamos acostumados.

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Figuras 1 e 2. Grande Reserva Paulista, 2026

Fonte: Fotos da autora.

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Figuras 03 e 04. Ocupação 9 de Julho, 2025

Fonte: Fotos da autora.

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Figura 05. Ocupação 9 de Julho, 2025

Fonte: Foto da autora.

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

20_122364

Fuente: Autoría propia

Habitat and inhabiting: the urgency of an urban poetics.

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Hábitat y habitar: la urgencia de una poética urbana.

Henri Lefebvre y las prácticas de apropiación en Brasil

Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana.

Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil

Habitat et habiter: l’urgence d’une poétique urbaine.

Henri Lefebvre et les pratiques d’appropriation au Brésil

Carolina Akemi Morita Nakahara

University of São Paulo, Institute of Architecture and Urbanism

cake.nakahara@usp.br

https://orcid.org/0000-0002-4297-6656

How to cite this article:

Nakahara, C. A. M. (2026). Habitat and inhabiting: the urgency of an urban poetics. Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil. Bitácora Urbano Territorial, 36(I): 264-276.

https://doi.org/10.15446/bitacora.v36n1.122364

Recibido: 24/08/2026

Aprobado: 05/02/2026

ISSN electrónico 2027-145X. ISSN impreso 0124-7913. Universidad Nacional de Colombia, Bogotá

(1) 2026: 264-276

Autor

20_122364

Abstract

This article proposes a critical rereading of the right to the city based on the distinction between habitat and inhabiting, grounded in Henri Lefebvre’s urban philosophy. It argues that the housing crisis cannot be resolved solely through technical-administrative means; rather, it requires the reactivation of inhabiting as a symbolic, sensuous, and creative practice. In dialogue with authors such as Heidegger and Nietzsche, Lefebvre articulates poiesis and appropriation as the foundations of a new urban praxis. From this perspective, the article examines experiences of occupation and self-management in downtown São Paulo, such as Ocupação 9 de Julho, which challenge the logic of property and the functionalization of space. By reconnecting the urban to language and collective creation, these practices not only contest the structures of spatial inequality but also revive the city as a poetic work.

Keywords: right to the city, urbanization, urban appropriation, poetry, Brazil

Resumen

Este artículo propone una relectura crítica del derecho a la ciudad a partir de la distinción entre hábitat y habitar, con base en la filosofía urbana de Henri Lefebvre. Se argumenta que la crisis de la vivienda no se resuelve únicamente por medios técnico-administrativos; antes bien, requiere la reactivación del habitar como práctica simbólica, sensible y creativa. En diálogo con autores como Heidegger y Nietzsche, Lefebvre articula la poiesis y la apropiación como fundamentos de una nueva praxis urbana. A partir de esta clave, el texto examina experiencias de ocupación y autogestión en el centro de São Paulo, como la Ocupação 9 de Julho, que tensionan la lógica de la propiedad y de la funcionalización del espacio. Al reconectar lo urbano con el lenguaje y la creación colectiva, estas prácticas no solo cuestionan las estructuras de la desigualdad espacial, sino que también reavivan la ciudad como obra poética.

Palabras clave: derecho a la ciudad, urbanización, apropiación urbana, poesía, Brasil

Resumo

Este artigo propõe uma releitura crítica do direito à cidade a partir da distinção entre habitat e habitar, com base na filosofia urbana de Henri Lefebvre. Argumenta-se que a crise da habitação não se resolve apenas por meios técnico-administrativos; antes, requer a reativação do habitar enquanto prática simbólica, sensível e criativa. Dialogando com autores como Heidegger e Nietzsche, Lefebvre articula a poiesis e a apropriação como fundamentos de uma nova práxis urbana. A partir dessa chave, o texto examina experiências de ocupação e autogestão no centro de São Paulo, como a Ocupação 9 de Julho, que tensionam a lógica da propriedade e da funcionalização do espaço. Ao reconectar o urbano à linguagem e à criação coletiva, essas práticas não apenas contestam as estruturas da desigualdade espacial, mas também reavivam a cidade como obra poética.

Palavras-chave: direito à cidade, urbanização, apropriação urbana, poesia, Brasil

Résumé

Cet article propose une relecture critique du droit à la ville à partir de la distinction entre habitat et habiter, fondée sur la philosophie urbaine d’Henri Lefebvre. Il soutient que la crise du logement ne se résout pas uniquement par des moyens technico-administratifs ; elle requiert au contraire la réactivation de l’habiter en tant que pratique symbolique, sensible et créative. En dialogue avec des auteurs tels que Heidegger et Nietzsche, Lefebvre articule la poiesis et l’appropriation comme fondements d’une nouvelle praxis urbaine. À partir de cette clé de lecture, le texte examine des expériences d’occupation et d’autogestion dans le centre de São Paulo, telles que l’Ocupação 9 de Julho, qui mettent en tension la logique de la propriété et de la fonctionnalisation de l’espace. En reconnectant l’urbain au langage et à la création collective, ces pratiques ne contestent pas seulement les structures de l’inégalité spatiale, mais ravivent également la ville comme œuvre poétique.

Mots-clé : droit à la ville, urbanisation, appropriation urbaine, poésie, Brésil

Introduction: the Permanence of Habitat

According to critic Charles Jencks, in mid-1972, modern architecture met its symbolic end with the implosion of part of the Pruitt-Igoe housing complex in St. Louis, Missouri. Designed by Minoru Yamasaki and inaugurated in the 1950s, the development incorporated the precepts of modern functional rationality—a recurring feature in various post-war European urban experiments, later replicated in the Americas. Comprising 33 linear blocks housing more than 2,800 residential units, Pruitt-Igoe epitomized the belief in standardized housing units, rigid zoning, and social engineering promoted by modern urbanism.

Today, more than half a century later, it is clear that Jencks' statement, although eloquent, may have been premature or, conversely, overly optimistic. The transformation of dwelling, understood as an urban totality, into habitat, a functional, fragmented, and reductionist unit of the activity of living, came to inescapably define the tone and pace of subsequent urban demands. It is from this divide that this article proposes to interrogate the theoretical and practical ramifications of the radicalization of the differences between habitat and dwelling . In particular, it posits that a dive into the poetic meanings inscribed in dwelling can reveal elements of a creative architectural and urban practice, historically neglected by the technical and functional regimes of space production.

The roots of this problem date back to the postwar period, when the rationalization of housing as a mass policy intensified (Lefebvre, 1968). From that moment on, the production of the city increasingly approached the logic of spatial reproduction of investment and profitability formulas typical of capital accumulation (Arantes, 2009). The fruitful association between economic investment and urban planning, united in a single movement, creates the ‘city-as-stage’, a scenario in which the planner, transformed into an entrepreneur or investor, acts to consolidate cities as true ‘growth machines’ or ‘wealth producers’ (Hall, 2007, pp. 407-15).

Let us look, for example, at some Brazilian cases in which the widespread—and often controversial—expansion of emblematic housing programs, such as Minha Casa, Minha Vida (PMCMV) and particularly in peripheral areas (Amore et al., 2015), not only contradicts Jencks' predictions, but also highlights the consolidation of signs characteristic of a monadic and commodified existence, confined to the habitat. Between 2020 and 2025, two of the largest developments linked to the PMCMV to date were inaugurated: Grand Reserva Paulista (Figures 01 and 02) and Cidade dos Sete Sóis, both located in Pirituba, a peripheral neighborhood in the northern zone of São Paulo.

Developed by the same real estate company, MRV, these projects are true urban colossi that, although promoted under the rhetoric of sustainability, intensely reproduce the paradigms of typological standardization and socio-spatial segregation. The former houses around 7,000 housing units distributed across 48 identical towers; the latter has more than 11,000 apartments organized into 65 blocks with similar characteristics. Although they contain public facilities and green areas inserted as devices to legitimize the intervention, these are contemporary citadels, devoid of any urban connection and operating according to a logic of socio-spatial encapsulation.

Thus, urban poverty is evident not only in the precariousness of slums and informal settlements, symbolically contrasted with the fortified enclaves of gated communities (Caldeira, 2000; Rolnik, 2017), but also in the projects conceived by the disciplinary field of Architecture and Urbanism itself, when, under the veil of technical voluntarism, we trace both the formally produced spaces and the contours of what may be desired.

Under the aegis of private property and so-called new enclosures, the commodification of urban space heralds the primacy of profitability and productivity, to the detriment of thinking about architecture and spatial relations themselves (Ferreira, 2012). The resulting urban morphology, necessarily segregating and selective – since “it is not the entire planet that interests capital, but only parts of it” (Chesnais, 1996, pp. 17-8) – is configured based on the guidelines of ‘the briefing’ (Shimbo, 2010, p. 214). This, in turn, is not only based on budgets and physical-financial schedules: it is also guided by market fluctuations, through various urban indices and coefficients that determine the degree of utilization and the supposed efficiency of the architectural project.

For Lefebvre (1991), this is a society that has renounced its creative capacity, surrendering itself to endless repetition, a symptom of a mindset that, as Milton Santos (1993) warned, remains trapped in the economic matrix, unable to develop an alternative civic and spatial model. In Brazil, this dynamic is widely analyzed by critical literature that highlights the worsening of urban inequalities under neoliberal hegemony, in which financialization and globalization—traits of the “longest phase of uninterrupted capital accumulation” (Chesnais, 1996, p. 34)—transform housing and urban space into assets for profit and income (Fix & Paulani, 2019).

In this context, participation and the right to the city, once expressions of concrete disputes and urban uprisings, are assimilated by the logic of private property and become autonomous: participation is naturalized in consumption, understood as the only authentic element of the city (Tafuri, 1985); the right to the city is reduced to a technocratic agenda focused on housing provision, which shifts its radical content to a conciliatory and operational vocabulary (Tavolari, 2015); and the appropriation of space is formalized as behavior (Lefebvre, 1991). As Lefebvre himself points out (1991, p. 162), demands relating to housing, work, leisure, and education tend to be inscribed in a 'moral and legal plan' and, co-opted as part of the state strategy, become incapable of breaking with the hegemonic code imposed on the city.

This is not a matter of reiterating the already widely discussed arguments about the commodification and financialization of housing and urban space. The starting point in this case is a provocation by Henri Lefebvre, formulated back in the 1960s: "technological alienation is now common to both socialism and capitalism" (Lefebvre, 1969, p. 271). Even then, the philosopher laid bare the workings of a process of globalization that, paradoxically, presented itself as a world stagnated by technicality, “full of techniques and human machines, empty of authentic life” (Lefebvre, 1969, p. 259). In this dialectical movement, the process of accumulation, by expanding globally —by becoming the world itself— implied a narrowing of the horizons of everyday life, imagination, and desires. And this was true on both the right and the left.

This diagnosis guides the reflection developed here on the differences between habitat and inhabiting, by questioning the limits of an architectural rationality that remains entangled in technical-functional lexicon. As Lefebvre warned, the rationality that governs pragmatism anchored in the economic sphere is not the privilege of right-wing thinking, but is ingrained in the left, when it proves incapable of expressing its urban demands except by enunciating the same functionalist grammar to which we are accustomed.

Focusing on Brazil and based on the recognition of the conceptual key that has been widely disseminated here to meet urban demands, the article draws attention to the urgency of considering the poetic sphere in the production—and creation—of cities. In particular, it criticizes approaches that subordinate the urban experience to the technical logic of housing provision, assuming that simple access to housing would, as a consequence, resolve the set of demands of living.

The Right to the City in Brazil:
the Normative Imaginaries of Living

To understand how urban transformations have been linked to discourses of citizenship and the normative imaginaries that structure contemporary political action, it is necessary to revisit the conceptual trajectory of the right to the city in Brazil, especially its appropriation during the processes of redemocratization. As a starting point, we highlight an observation by James Holston that summarizes the confluence between critical intellectual production and political action at this moment:

More important to the “turn to rights” in urban social movements was the influence of Henri Lefebvre’s work on the “right to the city” and “everyday life” as arenas for political struggle, Manuel Castells’ work on “the urban question and social movements,” and David Harvey’s work on “social justice and the city.” These ideas captured the imagination of planners, architects, lawyers, and social scientists, who promoted urban social movements and eventually became leaders of NGOs and local governments. Furthermore, I would emphasize the importance of classical liberal arguments in defense of the rule of law and respect for private property rights and political citizenship, which also accommodated a broad coalition against dictatorship and helped legitimize rights as the currency of a national democratization project. (Holston, 2013, p. 438, note 9)

This critical approach leads us to the central question posed by the author: why did Brazilian society constitute itself on the basis of discourses of rights, even in the face of the tensions and contradictions internal to this project, especially in light of intellectual debates anchored in the Marxist tradition? This in a context in which the vulgar and normative use of Marx had been questioned for almost a decade (Schwarz, 1999). The answer is structured around a myriad of articulations that traverse theoretical shifts, political inflections, and disciplinary reconfigurations.

A first dimension of this answer emerges when, as Evelina Dagnino (1998) observes, between the 1970s and 1980s, important sectors of the left and social movements in Brazil underwent a theoretical and political inflection. The hegemony of the classical Marxist approach was gradually replaced by a Gramscian perspective, more attentive to the articulation between culture and politics. This shift catalyzed more pragmatic interpretations of democracy, bringing it closer to the notion of law as an instrument of struggle and inclusion.

It was in this same context of theoretical and political reorientation that the manifesto Le Droit à la ville was translated into Portuguese and Spanish in 1969, just one year after its original publication in French, in an unusual publishing move for Lefebvre's work. This early dissemination coincided with the resurgence of military dictatorships in Latin America and, simultaneously, with the efforts of academic and student groups to incorporate new theoretical references to interpret urban disputes (Jorge & Lelis, 2012). Faced with this scenario of repression and the search for alternatives, many contexts began to adopt—or resign themselves to—less abrupt forms of protest, more in line with the frameworks of democratic institutionality.

The ambivalent reception of Lefebvrian thought in Brazil can also be explained by other factors. On an international scale, Henri Lefebvre's work was progressively marginalized after the ebb of the May 1968 revolts, eclipsed by the rise of Althusserian structuralism and post-structuralism – both in the field of social theory and, more specifically, in architecture and urbanism, with authors such as Massimo Cacciari, Manuel Castells, and Manfredo Tafuri (Anderson, 1985; Shields, 2002).

Perry Anderson (1985, pp. 35-8) points out that the intellectual scene in Latin Europe witnessed a ‘frontal defeat’ of Marxism in the face of structuralism, leading, almost inevitably, to the isolation of Lefebvre, who continued to produce “unflappable and original work on themes typically ignored by much of the left”. Rob Shields (2002), in turn, adds that although Lefebvre criticized the limits of orthodox Marxism and broadened the debate to include space and everyday life, his work remained relatively oblivious to emerging discussions about social identities, ethnic-racial oppression, and multiculturalism. This gap, combined with a strongly philosophical and not very empirical approach, may have contributed to the limited reception of his thinking in contexts such as Brazil.

Given this, as Tavolari (2015) points out, at a time when struggles for housing were gaining centrality in the agenda of urban movements, authors such as Manuel Castells and David Harvey, more aligned with structural Marxism, began to exert decisive influence. In this context, the right to the city began to operate as an emblem that brought together heterogeneous agendas, giving cohesion to struggles that sought to incorporate historically marginalized agendas into the leftist field: ethnic-racial, gender, and cultural. The ‘struggle for rights’ thus appeared to be conditioned by the "struggle for the right to have rights" (Dagnino, 1998, p. 47), equating the notions of democracy and citizenship with urban living.

However, as the right to the city became more widespread in the form of access to urban services and facilities, the conceptual mismatch between Lefebvre and Castells became apparent: while the former gave housing a privileged place as an anchor for social mobilizations, the latter saw it as a secondary—and even deleterious—element in the face of the need for a broader critique of the production of urban space, a difference that is ultimately expressed in the opposition between habitat and habitation.

Although social movements played a decisive role in the redemocratization of several Latin American countries, their institutionalization led to significant tensions. As Dagnino (2004a) argues, the excessive emphasis on the institutional insertion of social struggles often led to the prioritization of agendas compatible with the frameworks of representative democracy under construction. Dissident proposals or those that escaped this normative logic were often discarded or devalued. In this context, a technocratic and functionalist approach prevailed, centered on “institutional engineering” (Dagnino, 1998, p. 46), which operated as a filter for what was useful for democratic consolidation.

This created a veritable “system of alibis” – to use Lefebvre’s terminology – which acted as an ally of a “mode of managerial domination” (Boltanski, 2013, p. 448). These devices, called “connectionists for justice” or “reintegrationists,” are typical of the “city by projects” (Boltanski & Chiapello, 2020), in an environment that relegates city dwellers to the status of “participants in increasing commodification,” as warned by Tafuri (1985, p. 57).

In Brazil, the convergence between the theoretical contributions of Henri Lefebvre and Manuel Castells proved particularly fruitful in the process of drafting and consolidating the City Statute. While Lefebvre's conception of the right to the city offered a robust symbolic and political horizon, the demands for housing and access to public services, based on Castells' analyses, provided operational guidelines for institutional action. However, in this process of legal and political standardization, Lefebvre's contribution was absorbed mainly as a symbolic statement—converted into a slogan, conceptual "umbrella," or "battle cry" (Schmid, 2012, p. 42)—disconnected from its more radical philosophical implications. This dissociation helps explain the widespread use of the term in Brazil, precisely because of its plasticity and adaptability to institutional agendas, even when disconnected from the structural criticism that originally underpinned it (Tavolari, 2015).

The panorama outlined above allows us to understand how, in the Brazilian context, the notion of habitat began to operate within a logic of symbolic substitutions, in which terms such as participation, citizenship, and rights—emptied of their original political content—function as mere alibis. This helps to elucidate why the right to the city was gradually reduced to the search for technical solutions to what Gabriel Bolaffi (1986) called a ‘false problem’. This shift dates back to the period of military dictatorship, when the ideal of home ownership was consolidated to the detriment of other forms of urban policy and land regulation (Bonduki, 2016) – widely instrumentalized by state mechanisms, labor laws, and real estate credit and financing mechanisms, which engendered a form of life planning based on a kind of biopolitics of debt (Martins, 2019).

Even with redemocratization, these instruments remained in place, becoming true ‘political facts’ with high electoral value (Rolnik, 2017, p. 293). In the 1980s and 1990s, housing began to be treated as a deficit to be overcome through policies that linked “making every Brazilian a homeowner” to the revitalization of market transactions, the stimulation of the civil construction industry, and the attraction of international capital (Rolnik, 2017, p. 269). The City Statute, approved in 2001, enshrines housing as a constitutional right—a corollary of this process, which continues to this day.

In recent years—and particularly intensely during the COVID-19 pandemic—spatial confinement and domestic isolation have intensified the effects of functionalist logic, revealing the limits of urban life organized around the housing unit. From the family and professional reconfiguration of the indebted subject, through the architectural design of increasingly compact and functional apartments, to the retraction of the public sphere in favor of the alienated seclusion of the monadic home, everything obeys this rationality. There is an ongoing systematic training, supported by various compensatory mechanisms that attempt to conceal both the precariousness of the urban experience and the suppression of the possibilities of collective existence—or the ‘common world’, to use Arendtian terminology.

Ultimately, it is the city that suffers, and with it, one of the most fundamental dimensions of living. The proportion and speed with which these projects are designed and executed, associated with multiple economic and political interests, reproduce urban models historically marked by spatial fragmentation: the rigid separation between center and periphery, monofunctional zoning, socio-spatial segregation, exclusionary verticalization, gentrification, and the proliferation of privatized and fortified spaces. This results in a city marked by fear, by the absence of common spaces, and by the rarefaction of public arenas for coexistence and conflict—everything that contradicts Lefebvre's conception of dwelling as collective praxis and poiesis.

In one of the rare passages in which he more precisely defines the right to the city, Lefebvre defines it as the right “to urban life, to renewed centrality, to places of encounter and exchange, to the rhythms of life and uses of time that allow for the full and complete use of these moments and places” (Lefebvre, 2016a, p. 139). Nevertheless, as an inseparable part of the urban form, the “right to difference” is also affirmed—that is, “the right not to be forcibly classified into categories determined by homogenizing powers” (Lefebvre, 1973, p. 38). As the author himself emphasizes, this right to difference is not granted by decree, but is achieved in practice and in struggle:

The right to difference does not guarantee any right that has not been won through hard struggle. This “right” is valid only because of its content, as opposed to the right to property, which is valid because of its logical and legal form, the principle of the code of normal relations within the capitalist mode of production. (Lefebvre, 2000, p. 457, our translation)

This shift in the understanding of violence reveals the totalizing—and, why not say, fascist—logic that permeates not only the cultural industry and the media, but also contemporary modes of production of space and reproduction of everyday life. It is a silent and structural violence, anchored in the homogenization of the city and in the single thought that guides its configuration. A violence that does not eliminate inequality or welcome difference, but transforms them into functional fragments, converting them into raw material for the profitable machinery of capitalist urbanization. Instead of resolving conflicts, this logic absorbs and neutralizes them, shaping behaviors and subjectivities according to market imperatives.

Poiesis: Appropriation, Not Ownership

The starting point for a critical reinterpretation of the right to the city, in our hypothesis, lies in poiesis. Although linked to the Marxist tradition, Lefebvre does not shy away from critically dialoguing with authors such as Heidegger and Nietzsche, proposing a y conception of space anchored in Topos and Logos—that is, in place as code and as language.

We take as our theoretical inflection the provocation formulated by Heidegger (2012a, p. 140): "however difficult and distressing, however overwhelming and threatening the lack of housing may be, the crisis of dwelling itself is not primarily to be found in the lack of housing". This reflection was already outlined in the essay "... Poetically, man dwells..." (Heidegger, 2012b) – quoted by Lefebvre –, resulting from the philosopher's first seminars, whose title refers to a passage by Friedrich Hölderlin. The text begins with a central question: "Is dwelling incompatible with the poetic? Our dwelling is suffocated by the housing crisis," since "what is understood today as dwelling is driven by work, stirred up by the pursuit of advantages and success, bewitched by organized leisure and rest" (Heidegger, 2012b, 165).

Heidegger urges us to seek the essence of dwelling, understanding that it only becomes accessible and effective on the horizon of language. Returning to the original meaning of the word bauen—from German, translated as “to build,” but also as “to dwell,” “to cultivate,” “to protect”—the philosopher argues that the act of building should not be reduced to its technical, instrumental, or teleological dimension. Dwelling constitutes the core of human existence and, although it involves the practice of building, it cannot be emptied of its original semantic density. The multiple meanings of dwelling – cultivating, protecting – necessarily lead us to consider the relationships between everyday life and language – its codes, symbols, paradigms, that is, what we perceive as ‘habitual’ (Heidegger, 2012a, pp. 127-128).

The passages cited here, sometimes marginalized in critical readings, propose a radical inversion between dwelling and building, for: “we do not dwell because we build. On the contrary: we build and cultivate as we dwell, that is, as we are like those who dwell” (Heidegger, 2012a, p. 128). It is at this point that Heidegger offers a decisive contribution. More than denouncing the shortage of housing, he points to the forgetting of what it means, in essence, to dwell. The housing crisis, understood in this way, reveals itself as a symptom of a deeper uprooting, which compromises the very condition of being-in-the-world—it arises because we have unlearned how to dwell. For the habitat crisis is neither recent nor merely circumstantial—it precedes wars or population explosions. Habitat, reduced to a technical-administrative object, becomes a veil that hides the real problem: the crisis of dwelling itself.

Inhabiting refers to living in its deepest sense: remaining, staying, “lingering with things” (Heidegger, 2012a, p. 131), making room, finding shelter, making it your own—that is, appropriating it.

Placing dwelling in the realm of language and everyday experience allows us to understand, at least in part, Lefebvre's critique of the neutralization of urban experience. By stating that “by intervening in the housing issue, the State changed the practice, but not the code” (Lefebvre, 1991, p. 162), the author reveals the inadequacy of technical-administrative solutions that ignore dwelling as a symbolic and sensitive practice. Even so, Lefebvre (2016b) considers Heideggerian reflection to be excessively abstract and nostalgic, with little adherence to contemporary urban reality. He therefore proposes a rapprochement between poiesis and praxis, seeking a concrete anchorage—not only material, but above all social.

The emergence of cities offers a paradigmatic example of the joint action between poiesis and praxis in a creative process. The former shapes concrete reality—its forms, codes, symbols, and meanings—while the latter organizes human and social actions, establishing modes of coexistence and collective structures. Completing this triad, mimesis acts as mediation: repetition or imitation that allows the creative movement of poiesis (the poetics of content) to be articulated with the need to establish stable points of anchorage—the social forms that sustain practice. It is only at a later stage that these instances separate, in the context of the bureaucratized repetition of everyday life. At this point,

Poiesis forgets that it is also praxis: action on men through works and speech, education, training, foundation. As for praxis, it is established on the plane of exchanges through discourse, commerce, and contracts. It forgets that it was initially poiesis: the creation of an inhabited and habitable human world, the dwelling place of truth in the community. (Lefebvre, 2016b, p. 152, our translation)

As for mimesis, it is reduced to monotonous repetition, to mechanical reproduction that empties the original meaning of creation.

This overview offered by Lefebvre allows us to elucidate at least two fundamental aspects related to architecture and habitation. First, poiesis, in addition to creatively shaping the material world, is linked to thought and its representations. In this second sense, it implies a true “play with institutions” – that is, the ability to strain, deform, and transform rigid normative patterns – manifesting itself as creative impulse and openness to the new. This leads us to the second point: when we talk about representations, we cannot ignore the decisive role of imagination – a central, though often neglected, element in the field of architecture and the experience of dwelling. Lefebvre deepens this understanding:

Poiesis is, therefore, the creator of works [oeuvres]. It includes the founding of institutions and decisions with unlimited consequences, even if they sometimes go unnoticed for long periods. Thus, not all creation is poiesis, but all poiesis is creation. “Poetry” restricts the meaning of the word. [...] technology and technical invention will remain outside the field of poiesis. Technologies may well dominate “nature” (the external world) and therefore be necessary, but they are not sufficient to enable human beings to appropriate their own nature. This is a vital distinction in determining the limits of technology within modernity and in correctly defining technological alienation. (Lefebvre, 2016b, p. 27, our translation)

By bringing this appeal to the fore, poetic-philosophical thinking reopens the horizon of appropriation not as possession, function, or domination (technical), but as a creative gesture: a shared transformation of the common world and its own meanings. In a sense, we can understand appropriation as the very process of subjectivation of the world—a central element of modernity (Ferry, 2003)—in which heteronomous norms are broken in order to trace a possible horizon of emancipation.

Possible Images of Urban Poetry: Occupations

In a metropolis as contradictory as São Paulo—where the number of vacant private properties exceeds the number of homeless people—urban occupations reconfigure social imaginaries of housing, challenging the normative logic of private property and opening paths for urban poetic action. An exemplary case is that of the July 9 Occupation, located in the city center and organized by the Downtown Homeless Movement (MSTC), which goes beyond the paradigm of functional shelter and asserts itself as a space for symbolic production and political and poetic experimentation.

Particularly on weekends, the boundaries of housing are blurred, as the building is filled with shared daily activities, workshops, cultural events, and various graphics that are inscribed on the building's materiality (Figures 03 to 05). The Occupation Kitchen, organized according to principles of self-management and solidarity economy, transforms the act of feeding into a political and community gesture, while the work of women such as Carmen Silva—urban planner, teacher, and one of the leaders of the MSTC—highlights the micro-political power of these practices and the emergence of protagonists historically eclipsed in the urban debate. Such dynamics challenge regimes of recognition and exclusion (Butler, 2019), redistribute regimes of sensitivity – the “sharing of identities, activities, and spaces” in Rancière’s common world (2009, p. 17) – and reconfigure the regimes of visibility that shape the perception of urban poverty and segregation, highlighting space as a mediator of disputes over legitimacy and an instrument of praxis (Lussault, 2022).

Other emblematic experiences include the Dandara, Maria Domitila, Cambridge, and Lord occupations, all located in downtown São Paulo, which were supported by collectives and technical architecture advisors, thus highlighting the power of collaborative work in the requalification of existing urban structures. The leaders involved in the housing struggles include, in addition to the MSTC, the Unification of Slum and Housing Struggles Movement (ULCM), the Housing Struggle Front (FLM), and the Central and Regional Housing Movement (MMCR), as well as civil society associations and organizations. The MMCR alone is responsible for four other occupations in the city center: José Bonifácio, Caetano Pinto, Rio Branco, and Ipiranga.

It is worth noting that, in most of these cases, the regularization processes have taken place through the Minha Casa Minha Vida Program Entities (PMCMV-E), which is guided by a logic that is not only participatory but also self-managed in all stages of project design and execution. This modality has been more significant in the last twenty years and, although its production is still quite modest—especially when compared to the large housing complexes mentioned at the beginning of this text—it points to a strategic field to be contested. This becomes even more relevant in the context of urban occupations, which are often the target of stigma and defamation in a country where questioning private property—whether in terms of legality or legitimacy—remains a real taboo.

In these cases, what shifts is not only the way housing is produced, but the very field of desire: if, before, the horizon of possibility was restricted to access to habitat —understood as property and functional unit—, occupations reinscribe the desire to inhabit the city, that is, to collectively appropriate its spaces and uses. In this context, architecture ceases to operate as an instance of functional resolution of a previously defined agenda to act as spatial mediation of conflicts and desires not yet fully formulated. Although often framed as technical assistance, the practice of the architect begins to operate in a poetic and political field, straining the limits of what can be desired in urban space.

An indication of this is the Prestes Maia building, currently recognized as the largest vertical occupation in Latin America (Santandeu, 2018), which stands out for having recently been classified as a “social housing retrofit” (São Paulo City Hall, 2025). After decades marked by conflict, this achievement strains the boundaries between possession and use, between legality and legitimacy, and inscribes collective appropriation as a legitimate form of urban production — capable of disputing meanings and places in the face of private property.

In the examples listed here, the right to the city is not limited to mere access to housing or urban facilities — although essential, these elements still operate within the logic of survival and spatial economy (Lefebvre, 2000). What the occupations reveal is another possibility for urban existence, in which the city is once again understood as a work of art and space as a place of invention. By destabilizing institutional norms and operating in the interstices of legality, these practices activate a genuinely poetic sense of the urban: a transformation of code, sign, and use, capable of converting ruins into symbols of resistance and collective desire. In effect, the usual paradigms of our urban grammar—inside and outside, public and private, legal and illegal, self and other, individual and common—cease to operate as we are accustomed to, being displaced by ways of life that invent new rules, meanings, and belongings in the space of the city.

As Lefebvre observes, the space of capital operates under a logic of distancing and segmentation—an abstract, silent, apparently neutral space that hides class struggle under the ideology of consensus. In it, the strategy of property reigns supreme: “what is yours is not mine, places and things” (Lefebvre, 2000, p. 69, our translation). And yet, common places, shareable spaces —cafes, squares, monuments— remain, whose symbolic and collective appropriation resists total privatization.

Given the limitations of conventional democratic channels, spatial subversion takes on the contours of legitimate political practice. Occupations expose the asymmetry of urban conflict and affirm that, more than a mere stage, space is an agent, instrument, and mediator of the dispute. In this sense, the right to the city is not merely an institutional demand, but an insurgent gesture: a poetics of inhabiting that, even under threat, insists on opening gaps for a common world.

Final Considerations

Reclaiming the right to the city, in Lefebvre's view, requires more than specific public policies or technical-administrative solutions: it demands a change in language, code, and sensibility. By distinguishing habitat as a functionalized space of housing and dwelling as a symbolic, poetic, and collective dimension, Lefebvre's thinking invites us to reimagine the city as a work—and not as a product. It is in this sense that the notion of poiesis takes center stage: as a creative impulse that connects doing to meaning, experience to language, and reopens architecture to the possibility of acting not only as a provisioning technique, but as mediation in the invention of the common.

In urban occupations—and in so many other everyday forms of resistance and reinvention—there pulsates a poetics of space that resists the oblivion and commodification of life. There, inhabiting ceases to be a mere function and becomes expression, use value, sensitive enjoyment. In times of expropriation and uprooting, marked by urbanization reduced to repetitive monotony—where a single note reigns supreme—perhaps it is precisely in the poetry of space and the practice of appropriation that our most concrete chance to rebuild the common world lies: a space where other voices can resonate.

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LISTA DE ABREVIAÇÕES USADAS NESTE ARTIGO

FLM: Frente de Luta pela Moradia

MSTC: Movimento Sem Teto do Centro

MMCR: Movimento de Moradia Central e Regional

PMCMV: Programa Minha Casa, Minha Vida

PMCMV-E: Programa Minha Casa, Minha Vida Entidades

ULCM: Unificação das Lutas de Cortiços e Moradias

Carolina Akemi Morita Nakahara

Professor at the Institute of Architecture and Urbanism at the University of São Paulo (IAU-USP), in the area of Theory and History of Architecture and Urbanism. Graduated in Architecture and Urbanism (EESC-USP, 2004) and Philosophy (FFLCH-USP, 2021), she holds a master's degree from IAU-USP (2011) and a doctorate from FAU-USP (2021), with the thesis From habitat to poietic dwelling: participation, appropriation, and utopia in Henri Lefebvre. She is a member of the NEC (IAU-USP) and PC3 (FAU-USP) groups. She conducts research in critical urban thinking, with an emphasis on the meanings of dwelling and the dialectical relationships between praxis and poiesis in the production of space.

Autor

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Habitat and inhabiting: the urgency of an urban poetics.

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

This diagnosis guides the reflection developed here on the differences between habitat and inhabiting, by ques­tioning the limits of an architectural rationality that re­mains entangled in technical-functional lexicon. As Le­febvre warned, the rationality that governs pragmatism anchored in the economic sphere is not the privilege of right-wing thinking, but is ingrained in the left, when it proves incapable of expressing its urban demands except by enunciating the same functionalist grammar to which we are accustomed.

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Figures 1 and 2.Grande Reserva Paulista, 2026

Source: Photos by the author.

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Figures 03 and 04. July 9 Occupation, 2025

Source: Photos by the author.

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Figure 05. July 9 Occupation, 2025

Source: Photo by the author.

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

Henri Lefebvre and practices of appropriation in Brazil

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Tavolari, B. M. D. (2015). Direito e cidade: Uma aproximação teórica [Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo].

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Nakahara, C. A. M. (2026). Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil. Bitácora Urbano Territorial, 36(1), 60–72. https://doi.org/10.15446/bitacora.v36n1.122364

ACM

[1]
Nakahara, C.A.M. 2026. Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil. Bitácora Urbano Territorial. 36, 1 (feb. 2026), 60–72. DOI:https://doi.org/10.15446/bitacora.v36n1.122364.

ACS

(1)
Nakahara, C. A. M. Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil. Bitácora Urbano Territorial 2026, 36, 60-72.

ABNT

NAKAHARA, C. A. M. Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil. Bitácora Urbano Territorial, [S. l.], v. 36, n. 1, p. 60–72, 2026. DOI: 10.15446/bitacora.v36n1.122364. Disponível em: https://revistas.unal.edu.co/index.php/bitacora/article/view/122364. Acesso em: 13 may. 2026.

Chicago

Nakahara, Carolina Akemi Morita. 2026. «Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil». Bitácora Urbano Territorial 36 (1):60-72. https://doi.org/10.15446/bitacora.v36n1.122364.

Harvard

Nakahara, C. A. M. (2026) «Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil», Bitácora Urbano Territorial, 36(1), pp. 60–72. doi: 10.15446/bitacora.v36n1.122364.

IEEE

[1]
C. A. M. Nakahara, «Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil», Bitácora Urbano Territorial, vol. 36, n.º 1, pp. 60–72, feb. 2026.

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Nakahara, C. A. M. «Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil». Bitácora Urbano Territorial, vol. 36, n.º 1, febrero de 2026, pp. 60-72, doi:10.15446/bitacora.v36n1.122364.

Turabian

Nakahara, Carolina Akemi Morita. «Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil». Bitácora Urbano Territorial 36, no. 1 (febrero 27, 2026): 60–72. Accedido mayo 13, 2026. https://revistas.unal.edu.co/index.php/bitacora/article/view/122364.

Vancouver

1.
Nakahara CAM. Habitat e habitar: a urgência de uma poética urbana. Henri Lefebvre e as práticas de apropriação no Brasil. Bitácora Urbano Territorial [Internet]. 27 de febrero de 2026 [citado 13 de mayo de 2026];36(1):60-72. Disponible en: https://revistas.unal.edu.co/index.php/bitacora/article/view/122364

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