O que pode vir a ser uma coleção? Pensando a partir de práticas e conceitualizações ameríndias
What Can a Collection Become? Reflections Based on Amerindian Practices and Conceptualizations
¿Qué puede llegar a ser una colección? Reflexiones a partir de prácticas y conceptualizaciones amerindias
DOI:
https://doi.org/10.15446/ma.v17n2.122567Palabras clave:
colecionismo, etnologia indígena, etnografia, antropologia das coleções (pt)collecting, indigenous ethnology, ethnography, anthropology of collections (en)
coleccionismo, etnología indígena, etnografía, antropología de las colecciones (es)
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Este artigo examina como o modo Rikbaktsa de colecionar, em particular, e as modalidades indígenas de colecionar, em geral, podem nos oferecer outras perspectivas sobre essa prática. Partiremos da etnografia Rikbaktsa, fazendo uma análise da forma como os artesãos desta população da Amazônia colecionam penas de gavião-real. Antes de chegar ao ponto de confeccionar adornos plumários, os artesãos guardam as penas em um estojo de líber (tsanipe), atribuindo ao ato de categorização e guarda do material, um estatuto ritual. Veremos como os protocolos rituais de manipulação e guarda das penas entre os Rikbaktsa são decisivos para a produção de corpos belos e saudáveis, bem como para a manutenção de uma relação equilibrada com uma miríade de seres não-humanos que compõem a floresta. Nesse contexto, temos como hipótese que o método de colecionamento de penas evidencia uma ética relacional indígena, uma vez que o processo é central para a longevidade da relação corpo-território. Tomando como mote este caso etnográfico, o artigo propõe uma discussão exploratória sobre as práticas colecionistas ameríndias, as quais raramente aparecem em debates teórico-comparativos sobre modalidades de colecionar. Para tal, destacar-se-á como coleções, entendidas aqui em um sentido heterodoxo, são geridas nas aldeias, e como artistas e curadores indígenas vem articulando de forma criativa a relação entre objetos e conhecimentos imateriais em contextos institucionais agora abertos à colaboração. O objetivo do artigo será mostrar que o processo de colecionamento Rikbaktsa, ainda que ancorado em uma prática tradicional, se articula aos debates atuais da museologia colaborativa: junto à literatura, a etnografia ajuda a refletir criticamente sobre os critérios de coleta e classificação que sublevaram a formação de coleções institucionais. Ao final, espera-se ter demonstrado o que pode vir a ser uma coleção a partir de práticas e conceitualizações ameríndias.
This paper examines how the Rikbaktsa way of collecting (in particular) and the indigenous ways of collecting (in general) can offer us other perspectives on this practice. We will start from Rikbaktsa ethnography, analyzing how artisans from this population in the Amazon collect harpy eagle feathers. Before reaching the point of making feather adornments, artisans store the feathers in a liber case (tsanipe), attributing a ritual status to the act of categorizing and storing the material. We will see how the ritual protocols for handling and storing feathers among the Rikbaktsa are decisive for the production of beautiful and healthy bodies, as well as for maintaining a balanced relationship with the myriad non-human beings that make up the forest. In this context, we hypothesize that the method of collecting feathers highlights indigenous relational ethics, since the process is central to the longevity of the body-territory relationship. Taking this ethnographic case as its starting point, the article proposes an exploratory discussion of Amerindian collecting practices, which rarely appear in theoretical and comparative debates on modes of collecting. To this end, it will highlight how collections, understood here in a heterodox sense, are managed in villages, and how Amerindian artists and curators have been creatively articulating the relationship between objects and intangible knowledge in institutional contexts now open to collaboration. The aim of the article is to show that the Rikbaktsa collecting process, although anchored in traditional practice, is linked to current debates in collaborative museology: along with literature, ethnography helps us to critically reflect on the criteria for collecting and classifying objects that formed the basis for the development of the institutional collections. In the end, we hope to have demonstrated what a collection based on Amerindian conceptualizations and practices can be.
Este artículo examina cómo el modo de recolectar de los Rikbaktsa en particular y las modalidades indígenas de recolectar en general pueden ofrecernos otras perspectivas sobre esta práctica. Partiremos de la etnografía Rikbaktsa, analizando la forma en que los artesanos de esta población de la Amazonía coleccionan plumas de águila harpía. Antes de llegar al punto de confeccionar adornos plumarios, los artesanos guardan las plumas en un liber estuche (tsanipe), atribuyendo al acto de categorizar y guardar el material un estatus ritual. Veremos cómo los protocolos rituales de manipulación y almacenamiento de las plumas entre los Rikbaktsa son decisivos para la producción de cuerpos hermosos y saludables, así como para el mantenimiento de una relación equilibrada con la miríada de seres no humanos que componen la selva. En este contexto, nuestra hipótesis es que el método de recolección de plumas pone de manifiesto una ética relacional indígena, ya que el proceso es fundamental para la longevidad de la relación cuerpo-territorio. Tomando como punto de partida este caso etnográfico, el artículo propone una discusión exploratoria sobre las prácticas coleccionistas amerindias, que rara vez aparecen en los debates teórico-comparativos sobre las modalidades de coleccionismo. Para ello, se destacará cómo se gestionan las colecciones, entendidas aquí en un sentido heterodoxo, en las aldeas, y cómo los artistas y curadores amerindios están articulando de manera creativa la relación entre objetos y conocimiento inmaterial en contextos institucionales ahora abiertos a la colaboración. El objetivo del artículo es mostrar que el proceso de coleccionismo Rikbaktsa, aunque anclado en una práctica tradicional, se articula con los debates actuales de la museología colaborativa: junto con la literatura, la etnografía contribuye a reflexionar críticamente sobre los criterios de recopilación y clasificación que han determinado la formación de las colecciones institucionales. Al final, se espera haber demostrado lo que puede llegar a ser una colección a partir de conceptualizaciones y prácticas amerindias.
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